o Brasil ratifica que lugar do negro é na favela, se não estiver na favela é nas prisões, e se não for nas prisões é no cemitério

 

“Com a intervenção militar o Brasil ratifica que lugar do negro é na favela, se não estiver na favela é nas prisões, e se não for nas prisões é no cemitério”. Entrevista com Monica Cunha

 

Por Alana Moraes e Fábio Zuker

 

publicado originalmente em Horizontal: https://goo.gl/w8i2DP

 

Não é exagero dizer que desde 2015 o Brasil está mais parecido com ele mesmo. Ao menos com o Brasil dos vencedores, o Brasil branco e colonial. O governo do presidente Michel Temer, fruto de um golpe de Estado maquiado de impeachment que destituiu a presidenta Dilma Rousseff, estabelece um plano de governo jamais submetido ao escrutínio popular pelas urnas. As paredes que sustentam a reação neoliberal imposta por meio das medidas de austeridade aliadas a retrocessos trabalhistas, ambientais e de políticas sociais são as mesmas que ainda mantém de pé um aparato racista de genocídio e extermínio. Austeridade e violência de Estado constituem-se como um novo regime de governo da vida que agora se atualiza com a intervenção militar no Rio de Janeiro.

 

A proposta tirada da cartola da noite para o dia, sem plano claro, e que causou incômodo não apenas na mídia e em círculos próximos a defensores de Direitos Humanos, mas também no alto escalão do exército – que considera a medida ineficaz para combater a violência, embora não tenham hesitado em solicitar pública e oficialmente que eventuais crimes cometidos pelas forças armadas não fossem julgados. Marielle Franco, mulher negra e favelada, eleita com 46.502 votos, era relatora de comissão legislativa que fiscaliza a intervenção e desde o início foi uma das vozes mais contundentes contra a operação militar.

 

Na quarta-feira, 14 de março, por volta das 22h, Marielle Franco, do Partido Socialismo com Liberdade (PSOL) foi assassinada com quatro tiros na cabeça, ao sair de um debate sobre direitos das mulheres negras. A munição usada foi de um lote vendido para a Polícia Federal. Mais uma vez, o Brasil maior revela sua face em uma cena trágica de execução. Mas agora, o Brasil das revoltas subterrâneas e permanentes atende o chamado de Marielle e inunda as ruas do país nos lembrando que a guerra não acabou.

 

É esse o momento em que realizamos a entrevista com Monica Cunha, uma mulher negra, militante e mãe de um jovem executado pela polícia civil em 2006. É desse lugar de mãe que Monica denuncia um Estado que mata um jovem negro a cada 23 minutos. Monica e Marielle, duas mulheres negras que se encontram para ecoar a voz de um Brasil que ainda não se deixa matar.

A intervenção militar no Rio de Janeiro

 

O meu entendimento sobre a intervenção militar no rio de janeiro não é igual ao da maioria. Mas deveria ser, pois a maioria das pessoas no Rio de Janeiro são pretas, pobres e faveladas, moradores da periferia. Apenas uma minoria que entende para que serve, e para que é essa intervenção dentro do estado do Rio de Janeiro. Pra mim, é mais uma forma de militarizar o negro, o pobre e o favelado. É mais uma forma de não dar a oportunidade, de segregar esse povo dentro de seus espaços e seus lugares. É mais uma forma de tirar o direito desse povo de ir e vir.

 

Durante a ocupação na Maré [complexo de favelas da Zona Norte do Rio de Janeiro], que ainda não era uma intervenção (…) quem está lá dentro sabe que não foi bom. Mas é óbvio que quem está aqui fora não tem a mesma visão. As pessoas de fora acham que a intervenção veio para combater os jovens que estão dentro desse varejo. Por que eu digo varejo? Eu não digo tráfico e nem bandido, pois eu tenho um outro entendimento sobre isso. Se eu for ficar ratificando que esses adolescentes e jovens são bandidos e traficantes, terei que dizer que eu pari um bandido. E isso não é verdade! A droga não é feita dentro do morro, não existe condições de se ter uma central de produção de armas dentro da favela. Então isso tudo é trazido de fora.

 

Temos que entender por que esses adolescentes tiveram apenas essa alternativa de vida para arrumar dinheiro. Eles querem estar na linha de frente? Eles querem estar com o corpo deles caído no chão? Te digo com certeza que eles não querem! Mas eles não têm oportunidades: as escolas públicas são uma vergonha, no Brasil todo. Dá pra contar nos dedos os dias de aulas que tem na favela.

 

Esses jovens infratores são vistos com uma arma na mão, com um saquinho de maconha na mão, então muitos acreditam que é ele que precisa ser abatido, que é ele o bandido. Mas isso foi construído por quê? O Brasil foi o último país a abolir a escravatura e ainda não fez nenhuma reparação. Com a intervenção militar, o Brasil ratifica que o lugar do negro é na favela, se não estiver na favela é nas prisões, e se não estiver nas prisões é no cemitério. A militarização vem para, mais uma vez, afirmar essa situação.

 

Monica Cunha, 52 anos: mulher, negra e militante

 

Tenho dezesseis anos de militância de direitos humanos anos, que começam com a situação do meu próprio filho. Sou uma mulher negra, moradora da zona norte, do Rio de Janeiro, e tive três filhos. O meu filho do meio se chamava Rafael da Silva Cunha, e se tornou um adolescente autor de ato infracional. Aos 15 anos de idade, entre 2000-2001, ele ingressou no sistema carcerário para cumprir medidas sócio educativas.

 

Até conhecer esse lado cruel da vida, eu tinha uma situação razoável, com meu marido tínhamos uma pensão. Eu trabalhava na cozinha. Depois trabalhei em restaurantes e bares. Mas uma das primeiras coisas que me aconteceu, quando passei a viver essa experiência, foi perder o meu emprego, por conta dos dias de visita ao meu filho cumprindo medidas sócio-educativas. Perdendo o emprego, perdi o meu sustento, e aí comecei a decair.

 

De 2001 para cá começa o meu entendimento, no começo muito cru, porque eu nunca tinha vivido isso na minha família. Aprendi tudo na marra, com muito tropeço, sendo muito maltratada, desrespeitada, tendo a minha autoridade de mãe retirada, não sendo mais vista como mãe, e sim como culpada por ter parido um filho que está dentro do sistema carcerário.

 

Eu entendi logo no início, é que precisava estar junto dessas outras famílias [de jovens cumrpindo medidas sócio-educativas], e principalmente fazendo o recorte de gênero e de raça, porque eram as pessoas que estavam nessa luta junto comigo, desde o início. Então eu visualizei que minha luta precisava começar por aí. Comecei eu mesma passando a me identificar como mulher negra – o que na minha geração não era algo que se acontecia de imediato. Essa identificação auxilia para entender também o que eu estava passando, inclusive outras mulheres com histórias muito mais complicadas do que a minha; com situação de moradia muito mais complexas, pois eu nunca vivi numa favela. Essa separação entre asfalto e favela existe e é real.

 

Aos poucos fui entendendo melhor as formas de atuação, me formei como Técnica em Educação Social, coordenei projetos dentro do governo do estado. Atualmente trabalho na Comissão de Direitos Humanos da ALERJ [Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro] presidida pelo deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) e continuo no Criola [instituição de 25 anos voltada à defesa dos direitos de mulheres negras no Estado do Rio de Janeiro]. Para eu estar dentro disso tudo e ter base, fundei o Movimento Moleque, constituído por mães e familiares de adolescentes dentro do sistema prisional, em um contexto que debate o direito dessas mães e familiares em cuidar desses adolescentes, retirando a culpabilidade que lhes é imposta; a sociedade acha que nós familiares somos as culpadas pelos adolescentes cometerem atos infracional.

 

O que ocorre é que esse ato infracional cometido por jovens cria um entendimento de que esses adolescentes podem ser assassinados, [muitas pessoas pensam]: “eu posso matar esse menino porque, afinal de contas, ele já roubou alguém, ele é ladrão!”. O Movimento Moleque debate que além do Brasil não ter pena de morte, os adolescentes não podem cumprir pena, e sim medidas sócio-educativas. Assim, é fundamental o apoio familiar aos jovens. Pois não é só a mãe a responsável. Muitas vezes eles não tem o pai. Eles apenas doam o seu espermatozóide. Mas e as avós, as tias, as primas? O Estado, diante de jovens cumprindo medidas sócio-educativas, lida só com a mãe, o que a faz a gente carregar todo esse peso nas costas.

 

A culpa não é desse jovem e nem da sua família. Toda essa situação é caracterizada pelo racismo, que leva esses adolescentes a estarem onde estão, e acabarem com suas próprias vidas e serem enterrados por conta disso. Em um país em que a maior parte da população é a negra, não temos as mesmas oportunidades: não temos políticas públicas que funcionem, que façam com que esse adolescente tenha uma situação de direitos adquiridos, e consiga ter uma infância e uma adolescência com todas as oportunidades que qualquer outro da classe alta tem.

 

O assassinato de Marielle Franco

 

Esse abate foi muito grave, foi uma perda muito profunda. Essa relação com as mulheres, era o que ela gritava com muito orgulho: “eu vim da favela, eu vim da Maré, eu sou mulher, mulher preta! Eu vivi isso”. Ela trazia no corpo a experiência que a maioria de nós, mulheres negras, vivemos – mas que para termos voz é muito difícil. Construímos a várias mãos, e então conseguimos colocar Marielle lá [na posição de vereadora]. Essa mulher que gritava a perda de nossos filhos, essa mulher que gritava o encarceramento dos nosso filhos, essa mulher que gritava as más condições em que nós vivíamos! Ela entendia bem o que gritávamos também.

 

O assassinato dela foi uma perda irreparável, foi um baque muito grande. Mas como nós estamos acostumadas a chorar e nos desesperar, ao ver como nossos filhos são abatidos, nós temos que, antes mesmo do enterro, limpar as nossas lágrimas e sair gritando por justiça. E foi exatamente o que nós fizemos a partir da execução da Marielle. Já estamos à frente gritando por justiça. Já estamos ecoando o que ela falava. Já estamos não deixando morrer a voz dela e o que ela pregava. O seu assassinato é mais uma vez matar a voz do povo negro. Mais uma vez afirmar que essa mulher é negra, que essa mulher é da favela.

 

Quando essa Marielle chegou lá [na assembleia legislativa], ela não foi maquiada. Ela foi para de fato cumprir o que os eleitores esperavam dela. Ela carregava muita coisa, como negra, favelada e lésbica – imagina a dificuldade que é para tantas meninas dentro da favela, a homofobia, pessoas querendo matá-las. E ela levantava o debate “a gente pode sim! Podemos ser!”. Muitas demandas que vinham no corpo dela, e que a cara dela mostrava.

 

A Marielle é um símbolo muito forte.A voz da Marielle não pode morrer! E a voz da Marielle está em nós todas! Desde quarta-feira, dez da noite, todas nós, mulheres negras, estamos nos chamando Marielle Franco, levando a bandeira dela, que é uma bandeira nossa. Vamos dar continuidade a tudo que em um ano e três meses ela começou. Nós podemos estar nesses espaços, câmara dos vereadores, ALERJ, Brasília. Esses espaços são nossos, não só como vereadoras e deputadas, mas também enquanto sociedade civil ocupando esses espaços.

 

Esse foi o legado que essa mulher nos deixou, e que não vamos deixar calar. Quando me perguntam quem fez essa brutalidade contra Marielle, eu respondo: foi o racismo! Foi a forma com que este país trata a maior parte da sua população. Eles deixaram claro que para um negro, não faz diferença se você é vendedor de balas, uma doméstica ou uma vereadora. No final das contas, o corpo fica no chão, baleado, de qualquer jeito. Mas não vão nos amedrontar.

 

Reportagens para saber mais:

 

(em espanhol)

 

Brasil llora por una mujer negra, lesbiana y feminista

El País, março 2018 >>

 

(em português)

 

Nota do PSOL: Marielle Franco, presente!

Site do Partido Socialismo com Liberdade, março 2018 >>

 

Meu guri: a mãe, a avó e a mulher de um dos 250 mil brasileiros presos antes do julgamento. Revista Piauí, setembro 2017 >>

 

Mal-estar na caserna: Intervenção no Rio expõe divergências entre generais e empurra o Exército para o centro do processo eleitoral.

Revista Piauí, março 2018 >>

 

Homenagem a Marielle de um coronel da PM do Rio: Os sinos dobram por ti

Geledés, março 2018 >>