6 de abril – Ato de proteção a Lula em SBC

Imagem:Brasil de Fato

Texto: Gavin Adams

6 de abril – Ato de proteção a Lula em SBC

Teve convocação geral para ir a São Bernardo, ao Sindicato dos Metalúrgicos, desde ontem à noite. Não fui passar a noite, esperando uma posição mais específica do que estava acontecendo. De manhã li que a posição era resistir à prisão e ficar no sindicato. Saí de casa às 10h correndo e deixei o café pela metade na xícara e fui de metrô ao Jabaquara pegar o elétrico 288 para Ferrazópolis. Chegando no terminal, vi dois helicópteros ao longe, sobrevoando o sindicato. Percebi que mais gente no ônibus ia apoiar Lula e conversamos. Confirmei que a posição é resistir a prisão.

Atravessei a passarela e já vi a aglomeração na ladeira da rua João Basso. Já dava para ouvir o carro de som e vi muita camisa vermelha. Não estava super cheio, mas razoável para a hora: umas 5 mil pessoas. Dei um giro. Eram 12h.

A maioria era militante e sindicalista, homems e mulheres de 40-60 anos. Mas depois chegaram mais jovens dos movimentos e facções e equilibrou. Todo mundo meio sério.

Estava meio angustiado e incerto do que poderia ocorrer. Era meio cedo mas não consegui ficar em casa. Era melhor estar lá e ver acontecer com mais gente em volta. A cartada de não se entregar embaralhava o jogo e aumentava a temperatura política. Para mim, era um enorme alívio que alguma resistência ia ter. Mas não estava claro ainda se a PF viria buscá-lo ou não.

O carro de som trazia muitos oradores, mas àquela altura muitos homens brancos, e o estilo sindical predominava na oratória. Dei um giro e vi os acampados do MTST, na calçada do estacionamento. Eram os mais animados e se protegiam do forte sol amarrando panos às grades. Um deles era estampado com princesas da Disney. Um batuque do Levante Popular da Juventude aliviou o ambiente e trouxe alguma humanidade ao evento.

O rosto e nome de Lula estavam em toda a parte. Vi uma camiseta do Malcolm X, da Frida Khalo, Coletivo de Mulheres Olga Benário, “Tô com Lula”, uma roxa do PSOL, PCO, Coletivo Democracia Conrithiana e outra da Mafalda “Fora Temer!”. Vi umas três camisas do Corinthians, uma do SPFC e outra do Santos. Os petroleiros com seus jalecos laranjas.

Encontrei G e avaliamos o que poderia acontecer. Não sabíamos nada e eu continuava nervoso. Alguns oradores de movimento estavam bem inflamados e radicais, e achava que o pessoal estava mesmo disposto a lutar com a polícia. Eu mesmo achava que Lula ia preferir se entregar sem confronto, e não seria a primeira vez que o PT faz chamado como se fosse a revolução e depois fica apenas no gogó.

Um maluco passou com um abacaxi nas mãos com a legenda: “Este é o troféu do Moro”. Outro moço trazia na camiseta “Life begins where your comfort zone ends”. A Erundina falou, e falou bem e foi muito em recebida pela galera que a ovacionou.

Entendi que a espera seria meio longa, ainda 13h e nada aconteceria até as 17h. Caminhei no meio do povo, fui almoçar em um restaurante que não estivesse super lotado, observei as pessoas e decidi deitar numa faixa de uns 50 metros que tomava todo o asfalto da rua João Lotto. Era um “Lula” gigante escritos com as frases “Moro imoral, Juiz parcial, Fora Temer!”.

De barriga para cima, sentia o asfalto quente atravessando a minha camisa até as minhas costas e a brisa fresca que começava a soprar no meu peito oprimido. Fechei os olhos e os sons se equalizaram de modo peculiar, sem imagem: os dois helicópteros agora ocupavam bandas sonoras diferentes, um de cada lado, cada um com sua cadência de explosões contínuas. A voz dos oradores tinha que virar a esquina para me atingir, e isso adicionava reverberações interessantes. As inúmeras conversas ao redor, o escroto que gritou “olha a polícia federal chegando!”, o rumor do corpo humano em grandes quantidades…. Tudo isso absorvi num misto de entrega e espera, nervoso demais para relaxar mas sensível o suficiente para sentir o comum e o público. Fiquei um tempo assim.

Viajei de novo na onda da “última vez”. Olhava o céu de São Bernardo do Campo, ao lado do sindicato dos metalúrgicos, cercado de falas e imagens que faziam paralelo entre os anos 1980 e hoje. Tento muito me libertar da melancolia geracional que me assalta, mas esta sensação de fim de ciclo é potente, para o bem e para o mal. Preferia estar no meio de um levante popular nacional, mas enfim, é o que tinha para hoje.

Levantei e reparei que os dois prédios da rua são chamados “The Place” e “The Life”.

Andei e encontrei V. Trocamos impressões sobre o dia, e achamos que resistir à prisão era significativo e que um ou dois dias poderia criar uma repercussão internacional importante. Ou, menos provável, algum tipo de espalhamento da desobediência, um levante nacional agora que se via Lula resistindo. Alto risco, pouco provável. Mas, aqui de tarde no ABC, ainda nas cartas. Ele disse que os advogados e familiares aconselhavam a entrega, mas que o movimento pedia radicalização e resistência.

Ouvi a Erundina falar, ela foi muito aplaudida. Muita gente falou, mas guardei na memória uma moça negra do Rap, o Boulos, Ivan Valente, Manuela, a outra moça negra que cantou “Estava dormindo, Kangoma me chamou. Disse levanta povo que cativeiro já acabou”. Muitos outros passaram em branco.

Vi a J, abracei-a e ela disse que vira o JT. Chegou um carro de som da CUT e dos metalúrgicos com uma mensagem muito radical de resistência e desobediência. Chegaram cantando “Uh, ABC!”.

Encontrei W e M. Ela disse que a PF não viria hoje e que Alckmin tinha oferecido apoio policial à PF. Disse que a água tinha sido cortada no sindicato, e de fato um carro pipa veio abastecer o prédio. Ela disse também que o prédio do sindicato estava cheio de escudeiros da CUT e que a ordem era “se tiver gente fora é melhor, mas se não tiver a gente garante a segurança”. Cumprimentei R, e depois passaram FK e F. Eles não são lulistas, fiquei feliz de vê-los ali.

Eram quase 17h, limite para a apresentação de Lula à PF e teve uma contagem regressiva…. “5,4,3,2,1, êêêê”. Teve muita celebração e um super alívio que não tinha polícia de prontidão e que a resistência do PT (finalmente) era um pouco menos retórica e algum tipo de enfrentamento tinha sido colocado.

O Lula pareceu nas janelas e foi muito ovacionado, e também muito fotografado pelo Stucker, seu fotógrafo oficial, em perfeita simbiose.

Um moço com um laser de bolso dirigia o seu raio em direção ao helicóptero da Globo. Este era uma de três aeronaves que faziam muito barulho e atrapalhavam o ato. A Globo foi muito xingada e de várias formas, e muitas vezes a galera toda cantou: “O povo não é bobo, abaixo a rede Glbo”, “Ei, Globo, vai tomar no cu”.

Depois que ficou claro que, ao contrário do que se falava no zumzum da multidão, Lula não ia falar, eu saí fora para o Terminal Ferrazópolis. Notei no caminho que a presença tinha inchado e que o cruzamento da João Basso com a Marechal Deodoro tinha virado uma balada, muita gente de pé no local.

A última camiseta que eu vi antes de cruzar a passarela para o Terminal Ferrazópolis foi “O cara tá voltando!”.

Deixando por último a rodada arqueológica, registro aqui as bandeiras, faixas e palavras de ordem.

Bandeiras: PCO, Coletivo Butantã na Luta, PT, CUT, UNE, UJS, PcdoB, SEDIM, PCO, MTST, MST, UPES, Levante Popular da Juventude, Juventude do PT, CTB, UPES, Marcha Mundial das Mulhereres, uma do Uruguai, PCB, DCE-USP, Juntos na Luta, Sintaema, PSOL amarela, uma Palestina, PCR, POR 4, CMP Central dos Movimentos Populares, #MAIS, uma LGBT, uma do Brasil, Esquerda Marxista, Liberdade e Luta, UJR, DCE-FATEC.

Tinha os balões da APEOESP, CNM-CUT. A camiseta “Marcha Zumbi + 10”, “Mulheres Negras de Minas com Lula” e “TLS PSOL”.

As faixas: “Companheiro Lula, aconteça o que acontecer eu nunca te abandonarei. Serra Car” que é o estacionamento ao lado do sindicato, “Eleição sem Lula é fraude”, “MTST”, “Globo corrupta e racista” e “Enquanto um Brasil destila o ódio, o mundo clama Lula o nobel da paz”, “DCE-FATEC”., “Casa Rosada: Eleição sem lula é fraude!”.

Já os cartazes traziam: “Moro, no tribunal da história, o réu condenado é você!”, “Não podem ´prender um sonho!”, “Das ruas não sairemos”, “A democracia e o Brasil estão de luto!”.

O helicóptero da Globo suscitou muitas reações: “ei, Globo, vai tomar no cu!”, “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!”. No geral, todas as tradicionais do Lula “Olê, olêolê olá….”, “Não tem arrego, Lula é do povo brasileiro!”, “

Tomei o elétrico, o metrô e fui para casa.