3 de abril – ato pela condenação de Lula na Paulista

Texto e imagem: Gavin Adams

3 de abril – Ato pela condenação de Lula na Paulista

Percorri a Paulista a pé desde a praça Oswaldo Cruz. Fui checar o ato pela condenação de Lula, que fora intensamente chamado por grupos como VemPraRua, MBL, Direita São Paulo, Movimento Endireita São Paulo. Eram quase 18h e tinha chovido a tarde toda. A CET começava a fechar vias da avenida e desviar o trânsito. OS carros de som se posicionavam e se preparavam para a noite.

Era difícil calcular quanta gente tinha lá no total, mas achei a quantidade expressiva. Tinha bem menos que os 100 mil do impeachment, achei que umas 30 mil seria justo como um total geral. Não foi o dilúvio que temia mas não dá para ignorar a força deste contingente.

Cheguei no MASP e já havia umas 1000 pessoas, ali ainda sem carro de som. Estavam animados com algumas câmeras presentes. Muito verde-amarelo, camisas da CBF e bandeiras do Brasil aos ombros. Achei equilibrado em termos de gênero, e a idade principal parecia estar entre 40-60, um perfil mais coxinha, branco de classe média-média e alta. Mas vi depois mais jovens sim.

Muitos ambulantes com bandeiras, faixas de cabeça e pixulecos de Lula e de Moro. No geral, a coisa era monotemática e reiterativa, mas achei a mensagem central forte: ninguém está acima da lei e contra a corrupção. Achei no começo que tinha pouca faixa e cartaz feitos à mão, mas no final apareceram mais.

Alguns deles: “STF, para que serve? Prisão de Lula já”, “Sou professora e a APEOESP não me representa. Fora PT”, “Ministra Weber, está nas suas mãos”, “Roubem que nóis garante! STF”, “Ministra Carmen Lucia resiste!”, “Prisão para condenados em segunda instância”, “Queremos eleições limpas”, “Prisão sem Lula é fraude”. Um cartaz era surpreendente: “Não à reforma da previdência, trabalhista, terceirização”.

Um menino negro de mochila enfrentou um orador e foi muito hostilizado e teve que sair.

Eram quatro ou cinco carros de som, do VPR, MBL, Direita São Paulo e Avança Brasil.

Achava tudo meio chato e opressivo. Fiquei muito surpreso de ter sentido no ar, pela primeira vez em uma manifestação coxinha, um cheiro de maconha!

Vi o Partido Novo com bandeiras e camisetas laranjas, mais sua faixa “A lei é igual para todos”. Muitas camisetas do Bolsonaro Presidente, além de “Sou + Moro”, e “Meu partido é o Brasil”.

“Lula, ladrão, seu lugar é na prisão!” e “A nossa bandeira jamais será vermelha” e “Eu sou brasileiro, com muito orgulho e muito amor”foram muito entoadas.

Na altura da rua Itapeva estava o carro do Avança Brasil. Sua faixa “Fora corruptos! #Lula na cadeia”. Em frente à FIESP, o carro do “Movimento Endireita Brasil” com sua faixa “Fora PT”. O veículo no alto trazia um pedalinho de verdade com figura de cisne, montado em cima do caminhão. Estava escrito “Fora Dilma”. Do outro lado do mesmo carro, um bizarro manequim de Lula presidiário, de pernas cruzadas, com cabeção de papiê-machê, de cabelo todo preto. Trazia um pixulequinho dele mesmo no colo, o que figurava uma perturbadora Pietá. No asfalto ao lado do carro, um homem com a máscara de plástico do Lula e roupa de presidiário fazia poses para quem quisesse tirar uma selfie com ele atrás de grades.

Vi uma camiseta “Acorda Brasil’.

Na altura da Pamplona, o carro da VemPraRua, com as faixas “Força Lava Jato” e “Democracia Sempre Justiça Já”. Já estavam a irradiar e o orador era jovem e bom. Perto vi as faixas “Fim da impunidade do judiciário” e “Condenação em 2a instância, tem que manter isso”.

Vi uma bandeira monarquista e o estandarte do Instituto Plinio Correa de Oliveira, que é a antiga TFP. Vi um cartaz com a figura de Gilmar Mendes: “Lacaio, comparsa, escória, toga suja quadrilheiro”.

O mais tétrico de todos os carros era o do MBL, que irradiava aquela música do “Chora petista, bolivariano, a roubalheira do PT está acabando. Sua conduta é imoral, fere os princípios da CF [Constituição Federal] nacional…”, com tambores militares e coro masculino. Muito alto. Já anotei que eles têm outra versão da mesma canção, onde pedem a liberação do porte de armas. Os oradores deste carro eram muito radicais e anti-esquerdistas. Falaram mal da Globo, que foi vaiada.

Já existe sim um fascismo que já está nas ruas: grupos de direita que roubam símbolos da esquerda, grupos paramilitares, discurso contra a política, discurso do ódio, inimigo interno etc…

Vi as camisetas “O Brasil tem jeito” e curiosamente uma “Tropicalismo”. Vi uma bandeira de São Paulo gigante. Recebi um panfleto contra o voto eletrônico.

Vi um carro com palco em cima (#NasRuas), na esquina da Peixoto, mas ainda vazio. Eram 18:45h. Logo cheguei ao carro do Direita Brasil, cujo nome era “Bordoada”. Sua faixa trazia “Abaixo a corrupção!”. Este era o último carro de todos, e notei que toda a Paulista estava fechada, da Augusta à Brigadeiro.

Voltei em direção à Consolação e vi uma gangue de umas 50 motos chegarem no local. Vi uma máscara de papel do juiz Moro. Vi as faixas “Foro de São Paulo organização criminosa” e “Justiça e Paz”.

Vi a camiseta “Las putas insistimos que los politicios no son nuestros hijos!”. Vi os cartazes “STF chega de proteção, quero Lula na prisão” e “Gilmar Vendido, traidor da pátria”.

Vi um único militarista, sozinho com uma caixa de som que irradiava canções militares.

Nessa hora, já umas 19h, vi uma faixa vermelha que me chamou a atenção: “Lula na Prisão. Fora Temer”. Eram cinco jovens, três deles no batuque, com camisetas vermelhas da Transição Socialista, a antiga Negação da Negação. Estavam em plena campanha pela prisão de Lula. Fui conversar e uma moça disse que estavam “disputando narrativas”. Estava incrédulo e apontei que o orador ao lado acabava de dizer que era preciso esmagar socialistas e comunistas, mas ela disse que “isso é o que Trotsky faria”. Lembrei a ela que ele nunca se aliou a fascistas, mas depois deixei quieto e eles seguiram. Pelo menos um coxinha vibrou muito com eles.

Notei que a FIESP estava acesa com cores nacionais. Vi uma camiseta “Acaboooou PT”, um cartaz “Beiçola canalha do STF”, uma faixa “Intervenção Militar Já” e outra “STF não nos decepcione”.

Vi um maluco com máscara do Guy Fawkes e avental com as cores da Itália. Ele arrumou duas caixas de pizza num mastro, onde escreveu: “Supremo Pizzaria Federal”.

Eram 20h e não consegui ficar mais. Tinha muita gente chegando ainda.

Descia com E a Rafael de Barros para ir ao Monte Carlo e vimos um carroceiro. Trazia uma grande bandeira do Brasil e um cartaz “Fora STF”. Chamava seus três cachorros e para um deles disse “sobre aqui, Lula!”.

Tomamos uma e fui para casa.

 

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Vi depois em casa que William Bonner encerrou a edição com uma notícia em tom de ameaça aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF): ele leu, ao vivo, dois tuítes do general Villas Bôas, comandante do Exército Brasileiro, em que repudiava a “impunidade” e dizia que o Exército está “atento às suas missões institucionais” . O Gal Paulo Chagas falou claramente de Lula e do STF, ameaçando ação militar. Sites de direita comemorando e falando em levante. A esquerda em polvorosa.