31 de março – Ato intervencionista Militar

Imagem e texto: Gavin Adams

31 de março – Ato intervencionista militar

Eram 11:30h e estava na linha Verde do metrô para ir checar as manifestações do dia. Tinha três atos programados: a dos militaristas intervencionistas, uma do Desbunde e outra antifa. Todas as três estavam marcadas para o mesmo local e hora (13h), e o potencial de conflito era grande. Busquei chegar cedo para ver como se daria a disputa por território.

Logo no trem vi quatro homens de preto, 30-40 anos e achei que fossem de direita. De fato desceram comigo na estação Trianon-MASP e foram para o vão. No caminho, um senhorzinho roto, sem teto, gritava muito no canteiro central.

Logo de cara deu para ver que os militaristas tinham já ocupado o lugar: dois carros de som estavam estacionados na rua em frente ao Museu, já irradiando som. Achei que naquele momento havia umas 500 pessoas. O carro de som tocava canções patrióticas e muito hino nacional também. A canção “Eu te amo, meu Brasil”, dos Incríveis, dos anos 70, tocou muito.

O motivo ostensivo deste ato foi a celebração dos 54 anos do golpe de 1964. No geral da manifestação, achei que os manifestantes não eram mais numerosos do que em ocasiões anteriores, nem o contato com os transeuntes parecia significativo. Eles na real são meio minoritários. Eu e E notamos que não houve menção a Bolsonaro em todo o ato que tenhamos vistou ou ouvido. Parecia mais uma ato de lançamento da candidatura do Gal. Mourão, esse sim muito citado como contendor ao Planalto. Achei tudo organizado e com mais faixas que de costume, acho que eles investiram no evento. Além dos dois carros em frente ao MASP, havia mais um em frente a Gazeta. Dois jovens conduziram os trabalhos ao microfone, muito competentes.

Dei um giro pelo local e pude ver muitas bandeiras do Brasil, a maioria sobre os ombros das pessoas. Predominavam os homens e mulheres de 40-60 anos, de verde-amarelo. Poucos jovens, exceto talvez uns de 30 anos que faziam a segurança. Achei mais ou mesno equilibrado em termos de gênero. Curiosamente, a presença de negros era notável, quase todos com jeito de ex-soldados. Contei pelos menos uns 50 paramilitares que faziam a segurança, de gorro e camiseta pretos. Mais tarde eles foram referidos como “o pessoal dos paraquedistas”.

Vi camisetas de várias divisões e grupos militares. Algumas delas com mensagens: “Reagrupar é nosso lema”, “Pronto Emprego Humanitário Granito Montanhismo”. Vi as camisetas e bandeiras amarelas do Liga Mundial Cristã, que geralmente vem a eventos intervencionistas.

Muita faixa: “Patriota em ação pela intervenção. Ladrões fora do poder. Intervenção constitucional e depois novas eleições”, “O clima iregular está acabando com o Brasil”, “União salva nossa pátria, nossa vida”. Uma delas trazia os retratos de todos os presidente militares do ciclo de 1964, com os dizeres: “Intervenção cívico-militar. 54 aniversário da contra-revolução democrática de 1964″ e “Levante Nacional contra a Corrupção e a Violência”, “Intervenção Cívico-Militar, solução para o Brasil”. Tinha faixas grandonas nas grades centrais da avenida e também uma que era estendida ao longo da faixa de pedestres para que os carros que esperavam o semáforo a vissem. ALguns motoristas buzinavam em apoio.

Vi um adesivo: !Intervenção ou morte! Decidiu já? Bandidos no poder matam”.

OS cartazes eram todos muito semelhantes entre si: “SOS FFAA”, “Militarização de todas as escolas em território nacional”, “O povo exige faxina nos três poderes já!”, “Intervenção militar já!”.

No barracão que tem no MASP, no vão, ainda estavam muitos cartazes de esquerda e feministas. Mas tinha pelo menos três adesivos do Bolsonaro por cima, um deles da “Direita SP”.

Não vi ninguém do VPR ou do MBL, exceto uma camiseta destes últimos.

A certa altura, o segundo carro iniciou a irradiar som, uma MPB swingada. Isso se chocou com o “Eu te amo meu Brasil” do primeiro carro, e colorida e estridente cacofonia se instalou. No alto do primeiro carro estava uma mulher que vejo sempre: fardada, cabelo muito curto, botas e boina. Ela segurava um mastro com bandeira brasileira e marchava no mesmo lugar ao som da massa sonora empastelada que incluía os versos “mulatas brotam cheias de calor”. Esta improvável chacrete com seu mastro de dança, a batida militar, os velhinhos de verde-amarelo batendo o pezinho lá embaixo me fizeram pensar que este poderia ser um tétrico filme de um filho perturbado de Felini e Glauber Rocha.

Passada a epifania do transe (um dos carros desligou seu som), fui dar uma olhada na FIESP e esperar E. A avenida estava toda fechada, da Consolação até pelo menos a Brigadeiro, aberta apenas para o trânsito transversal. Às 13:15h o ato tomou as duas vias da avenida.

Vi um senhor que vestia um capacete constitucionalista de 1932, na rua. Mais tarde ele falou no carro de som, e disse que trabalhara no DOPS com o delegado Fleury durante a ditadura e que sentia orgulho de sua luta. Disse que escoltara muitos prisioneiros políticos que hoje estavam “por aí mentindo”. Disse que o DOPS tinham 200 sindicalistas colaboradores, incluindo o Lula.

Chegou E e ouvimos alguns oradores. Achei as falas mais focadas, várias contra Temer e o derretimento das instituções. Eles esperam a deposição do presidente para abrir a porta da intervenção. Um deles afirmava que “estamos marchando sobre o Planalto e é questão de horas!”. Discursos genéricos contra a corrupção e alguns esboços de programa econômico nacionalista. Muita fala de deus e de justiça em termos religiosos: “somos contra os demônios! O demônio tem raiva do Brasil porque foi Osvaldo Aranha que arquitetou a formação do Estado de Israel”. Perdemos a fala do Gal. Assis, mas vimos ele sair escoltado pelos camisas-pretas.

Tentamos achar alguém do ato antifa ou do Desbunde, mas não achamos. A PM muito discreta. Vi uma bandeira de Israel e o velho sem-teto agora tinha um cartaz de papelão na mão e estava mais calmo.

Anotei mais faixas: “Socialistas e comunistas, chega de atrapalhar – Intervenção Cívico Militar”, “Forças Armadas, Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Federal. Salve os heróis do Brasil”, “FFAA libertem o Brasil do comunismo. Somos todos Mourão”, “Polícia Federal, orgulho da nação”, “Viva a Polícia Militar”, “Fim da quadrilha só com intervenção”, “O poder emana do povo, exigimos intervenção”, “Stop promoting Islam in Brazil”, “Brasil para brasileiros, fora socialistas e comunistas”, e uma faixa monarquista.

Cartazes: “Forças Armadas, as gerações futuras precisam de vocês como exemplos e referência”, “Lula ladrão na cadeia”, “Somos 100% Mourão”.

Eram 14:40h quando encontramos a fotógrafa A e com ela achamos onde estavam os antifas: logo ao lado do carro da Gazeta, na esquina da Pamplona. O carro de som intervencionista tinha mais ou menos 200 pessoas à sua volta, e alguns oradores já tinham falado em frente ao MASP. Trazia uma bandeira do Brasil e outra de São Paulo. As faixas: “Brasil ditadura do crime”, “Fora classe política traidora do Brasil”. Outra trazia “O neóbio é nosso! Presidente chega de contrabando”. O carro parecia ser da UND União Nacionalista Democrática.

Os antifas faziam muito barulho da esquina, e muitos intervencioniastas vieram confrontar. Teve certo empurra-empurra, com a massa de transeuntes passando ao lado, os carros passando no meio, e um sopapo que eu vi. Os antifas eram uns 20, com bandeira vermelho e negra, e gritavam energeticamente. Um fascista gritava “Não acabou, não vai acabar, eu apóio a polícia militar!”. Ao que o povo respondia “1,2,3,4,5 mil, lugar de fascista é na ponta do fuzil!”. A PM ficou inquieta e vieram dois atiradores e reforços. No carro de som, o orador gritava “Somos soldados de cristo!”. Vi depois que a direita jogou ovos nos antifas e a PM não os impediu.

Às 15h a coisa se acalmou e E disse que o Desbunde tinha sido remarcado para as 16h no mesmo local. Fomos até lá, mas só vimos um grupo de pessoas trocando figurinhas da Copa.

Um orador no carro de som afirmava que Bolsonaro tinha sido cassado pelo STF e impedido de concorrer às eleições, o que tinha o intuito de bombar Ciro Gomes. Cada um na sua bolha…

Eram 16h, segui a pé e fui para casa.

m uma que era estendida ao longo da faixa de pedestres para que os carros a vissem. Alguns