20 de março – Professores na Câmara e Marielle no MASP

imagem ALice Vergueiro: https://www.facebook.com/alice.vergueiro/posts/10155311803350770

Texto Gavin Adams

20 de março – Professores na Câmara e Marielle no MASP

Saí da Estação Sé para o ato dos professores em frente a Câmara Municipal. Eram 15h horas ainda na estação deu para ver duas mulheres com cartazes, certamente indo para o ato: “Em professor não se bate nem com uma flor” e a Mafalda gritando “Cansei! É greve!”

De manhã tinha tido uma manifestação de mães e crianças pela educação e contra as reformas de Doria. Passou em streaming e E viu. Disse que foi legal. Também na calçada na frente da Câmara estavam os acampados, que devem ter passado a noite lá. Ao meio dia teve missa de sétimo dia de Marielle no Largo São Francisco. Não pude ir.

Cheguei pela rua Maria Paula e deu para ver que tinha bastante gente, um pouco menos que na quarta, mas ainda assim bem expressivo. Entrei namassa e dei um giro.

Achei que os manifestantes eram do mesmo perfil que da semana passada: 90% de mulheres entre 30-50 anos. Tinha três carros de som e parecia que dois competiam pelo campo sonoro. Uma assembléia estava em curso e a continuidade da greve foi aprovada por aclamação. Parece que esta agora envolve mais categorias de funcionários públicos.

O sol estava quente e dei uma rodada arqueológica de mensagens escritas. Havia hoje mais material impresso de centrais e sindicatos, principalmente da Educação.

Vi balões da SEDIN, APROFEM, SINPEEM, SINDSESP, FETAM, CUT, SINESP e outro de um personagem completamente novo: o SINDIGUARDAS-SP.

Os cartazes à mão eram mais interessantes: “GCMs, vocês não podem fazer greve, mas suas famílias podem”, “Vereadores: comecem a reforma por seus privilégios”, “Sr. Prefeito: cadê? O leite das crianças? As linhas de ônibus? As AMAS? O respeito?”, “Plano de carreira: criado por Paulo Freire, destruído pelo Doria. Não à SAMPAPREV”, “Fora SAMPAPREV. Novo Postalis. ANIS”, “CEI Jardim das Vertentes”. Alguns impressos: “Não à contribuição 14%-19% para a Previdência”.

Passei pela frente da Câmara e vi as barracas do acampamento. Algumas eram toldos, e uma delas era uma oficina de cartazes “Venha explorar sua arte aqui. Venha expressar sua insatisfação produzindo seu cartaz”. Quinze soldados da GCM, com atirador e escudos guardavam o portão fechado. Uma tela com transmissão da sessão do plenário tinha sido instalada e competia com o som dos carros. Uma “cantora de jazz” tomou o microfone e cantou uma versão daquele samba de Zumbi, com uma letra adaptada ao contexto local.

Vi as bandeiras da CUT, CTB, ANEL, Vermelhas e negras, CSP-Conlutas, Liberdade e Luta, POR4, uma do Brasil.

Dei uma geral nas faixas, impressas e manuscritas: “Tem tanta coisa errada com a PL621 que não cabe em uma faixa”, “Não à PL621/16”, “Educação de qualidade criança prioridade”, SINESP, “Se aí não tem recuo, aqui não tem arrego!”, “Pelo extermínio da PL621/16. #retiradajá”, uma “SINDIGUARDAS Contra o desmote da Previdência Municipal. Não à PL621/16”, SEESP engenheiros, “Habitação em greve”, “Resistir e lutar! 30 anos SINDSEP.

Às 15:30h os vereadores suspenderam a sessão e os locutores nos carros cantaram vitória. O povo ficou feliz e comemorou. Também fizeram uma votação e tiraram de ir à Prefeitura, mas não à Paulista. Fiquei decepcionado, pois esperava o apoio. É verdade que Marielle tinha sido homenageada em algumas falas, mas achei que precisava mais. Igualmente, houve quem se incomodou com a chegada do carro de som e os balões no ato da Marielle na semana passada, que era mais de luto e menos de gritaria.

Ameaçava chover e dei um último giro de anotações: as faixas “Mais respeito por favor”, “Liberdade e Luta”, “ABRAPSO contra a violência de Estado e em luta pelos Direitos Humanos #nemumaamenos”. Os cartazes: “Saúde pela retirada da PL621”, “Dediquei minha vida à educação e agora eu estou doente e nas mãos dos políticos, quero garantir nossa aposentadoria digna e não o SAMPAPREV”, “Onde está a democracia? Onde estão as negociações? Abaixo a tirania”, “Vereadores: a greve é culpa de vocÊs. Retirem já a PL 621/16. Queremos trabalhar”. Vi um adesivo “Doria é lixo”.

Começou a chover forte e busquei abrigo num boteco. Trovoava e relampejava, achei que ia dispersar geral. Mas de dentro do boteco, escrevendo, vi o povo passar na rua, guerreiro e encharcado pelo dilúvio que chicoteava os manifestantes. A chuva me acovardou e eu ainda estava amuado que eles não estivessem a caminho do MASP. O locutor cantava a melodia da marchinha Aurora: “Se você fosse sincero, ôôôô, João Doria…”. Eu fiquei e aguardei antes de ir até a Sé e subir para a Paulista.

Cheguei no MASP às 17:30h encharcado, a chuva não tinha diminuído. Tinha um pessoal já lá, mas claramente o tempo tinha atrapalhado. Achei que éramos umas 500 pessoas. Bizarramente, havia muita polícia lá embaixo. Contei 4 viaturas, 22 motos e uns 30 policiais. Acho que a força policial estava também se abrigando da chuva, e de fato parte deles sumiu depois. Vi a fotógrafa A.

A maioria das pessoas parecia ser do MTST, e vi pouca gente de classe média que normalmente acorre a atos de esquerda. E àquela altura havia poucas bandeiras. Chegou o carro de som, uma camioneta com palquinho e tudo, nunca tinha visto. Uma faixa no chão trazia “Religiosos e religiosas por méoria, justiça e liberdade. Marielle e Anderson vivem”. Percebi depois que se tratava de um ato inter-religioso. Enquanto montavam tudo, dei um giro.

Vi uma moça que carregava o cartaz que tinha feito: “A facção está no palácio. #Marielle presente: não vão nos calar”. Vi uma bandeira do MTST e depois chegou o faixão roxo da Frente Brasil Sem Medo que eles às vezes trazem. Depois chegou uma faixa “Tomar as ruas por Marielle. Fora intervenção. Investigação independente. FAÍSCA, Pão e Rosas, Quilombo Vermelho”.

O ato acabou por começar perto das 18h e várias religiões estavam lá representadas, mas alguns religiosos estavam presos no trânsito infernal que a chuva tinha produzido e chegaram depois. Não retive nenhum dos nomes dos oradores, mas o mais interessante foi o representante das religões de matriz africana. Ele contou uma história de Exu, como ele teimava em se reconstitutir depois de cortado em pedaços numa situação envolvendo outros orixás. Aí resolveu-se que os pedaços de Exu fossem colocados em todas as coisas vivas, e assim temos a capacidade de nos juntar e restituir seu poder na ação. Disse também que Marielle é agora nossa ancestral.

As falas foram no geral bem-itencionadas e emotivas, mas cansei logo. Os cristãos em particular foram enfadonhos e repetitivos. Notei que ninguém falava mais claramente da autoria da execução, da violência de Estado. Achei irônico que simbolicamente, os assassinos de Marielle estavam lá também: os 64 soldados da PM e suas 15 motos; mas ninguém falou contra eles.

Assim, dei mais um giro e anotei mais algumas mensagens, agora que o povo contava umas mil pessoas. Vi os estandartes de algumas ocupações do MTST: Chico Mendes II, Carlos Marighella, Portal do Povo, Copa do Povo, e uma bandeira negra com o A anarquista, uma do MAIS, “Juventude Vai à Luta”, LSR e outra ainda da Transição Socialista. Vi uma camiseta da UBES, “Território Livre”, AFRONTE, “Keep calm and study”, “Mamados F.C. Padaria Garoa”, “Femme & Fierce”, “Eu sou Corínthians, eu sou fiel. Juiz de Fora”.

Saí fora às 18:45h, chovia muito ainda. Tomei um ônibus e fui para casa.