18 de março – Ato por Marielle MASP

Imagem: Ronaldo Silva – https://www.metrojornal.com.br/foco/2018/03/18/ato-na-paulista-homenageia-marielle-e-critica-intervencao-no-rio.html

Texto: Gavin Adams

18 de março – Ato poro Marielle MASP

Cheguei às 14:30h na Paulista a partir da Consolação para ir ao ato por Marielle Franco no MASP. Estava muito calor e caminhei até lá sob forte sol. Usei meu boné vermelho que apenas 12 meses atrás atraía agressões na rua. A avenida estava cheia. Como era ainda bem cedo, na frente do museu estavam apenas umas 100 pessoas. Uns 5 jovens negros pintavam cartazes no chão. Decidi dar uma volta e retornar mais tarde. Vi duas bandeiras do PSTU. Vi algumas moças do Ilú mais para a frente na avenida.

Na esquina da FIESP vi 5 senhorinhas intervencionistas na calçada. Tinham faixas no chão e um microfone. As faixas traziam “Todo o poder emana do povo. Desobediência civil”, “Povo sem partido, intervenção do povo”, “STF Renovação geral já”. Notei que havia uma bicicleta deles com muitos adesivos de veganismo, além da bandeira do Brasil. Enterrado no canteiro, um mastro com a bandeira de Israel. Depois lembrei dessas senhoras intervencioniatsas no meio do ato por Marielle e o contraste entre os dois eventos não podia ser maior: o ato por Marielle foi grande, a forte toque de percussão africana, juventude. Aqui, o raquítico estertor de uma classe média baixa radicalizada no cripto-fascismo.

Voltei ao MASP às 15:30h. No caminho, vi um cartaz da edição da semana da revista Veja, onde Marielle era capa. A chamada era que ela tinha sido morta por uma violência meio genérica, “um crime encomendado”. No decorrer do dia muitas pessoas vieram me falar da apropriação redutora e domesticadora que a imprensa vem fazendo da execução.

Cheguei logo na saída da passeata. Achava ainda meio vazio e estava decepcionado que não estava massivo e incontrolável. Mas ainda sim tinha um clima festivo e um número razoável de pessoas. Aumentou no caminho e acho que no final teve umas 2-3 mil pessoas.

Uma linha de jovens negros de braços dados abria a manifestação, na frente de uma bandeira pan-africanista. Quem puxava era a Frente Negra pela Memória de Marielle. Ao lado um estandarte “Negros Anticapitalistas. RUA”. Vi logo atrás mais gente e o Suplicy e o padre Lancelotti. O vereador ensaiava seus passos em dancinha simpática. A seguir dançarinxs do Ilú Obá, cercados de linha humana protetora, faziam suas evoluções na avenida, logo na frente da poderosa bateria do mesmo grupo. Depois seguia o povo com cartazes, faixas e bandeiras. Destas últimas, poucas, vi do PSOL (roxa e amarela), do Território Livre, o que eu acho ser da facção Negação da Negação, uma vermelha e negra, uma colorida LGBT e outra de um certo MLS Movimento de Luta pelo Socialismo.

Encontrei E e ele disse que havia movimentação no Rio também, lá dentro da favela da Maré. Refletimos sobre a composição do ato de hoje. A maioria era de mulheres, mas não esmagadoramente, talvez 60-40%. Havia muitos negros, mas boa parte era branca e de classe média.

Encontramos A que estava meio decepcionado com os números de manifestantes presentes, e ele disse que era essencial ganhar a batalha pelo significado da morte de Marielle, pois a grande imprensa já se apropriava do fato e fazia valer a sua versão.

Anotei alguns cartazes, todos feitos à mão: “Vidas negras importam”, “Luto é verbo”, “Obrigado Marielle”, “Ocupa as ruas pra acabar com o genocídio”, “Não à intervenção militar”, “Manas, não recuem”, “Marielle presente, sapatonas em luta!”.

Achamos M e ele avaliou que, a julgar pela análise do tráfego nas redes, o fenômeno Marielle tinha passado seu pico e estava caindo em termos de citações. Ele anotou que na quinta-feira apenas 7% do tráfego era desfavorável a Marielle, mas que essa diferença já tinha sido equilibrada nos dias subsequentes, ainda que a maioria dos comentários e posts tenha sido ainda pró-Marielle. O transbordamento que parecia possível na quinta-feira parece que não ocorreu. Ele lamentou e disse que entende a impaciência do movimento negro com a esquerda branca, pois quando aquela precisa massificar, a outra fica em casa. Também avaliei que tem muito jovem negro se radicalizando frente a paralisia da esquerda institucional.

Pensei muito no depoimento do ex-empregado do Cambridge Analytica, que é uma empresa que manipula as redes para ganhos de percepção, inclusive de produção resultados eleitorais. A entrevista-bomba saiu no Guardian e ganhou as páginas da imprensa internacional. Essencialmente eles conseguiram, através da varredura, leitura e análise de 50 milhões de páginas do Facebook, não apenas individualizar mensagens eleitorais para votantes específicos, mas também cercar estes indivíduos de informações que manipulam suas emoções e percepções através de performance passada: eles sabem o que te faz sair de casa, o que te assusta, o que te acalma. Tudo isso analisando (ilegalmente) seus likes e página no face. Aqui, o MBL teve contato com eles.

Anotei as poucas faixas que via: “Marielle e Anderson, Presentes! Agora e sempre!. RUA”, “Quem matou Marielle? JUNTOS!”, “Marielle presente. #vidasnegrasimportam, #8M, #nãovãonoscalar. Coletivo adelinas”, “Parem de nos matar!”.

Passamos pelo Conjunto Nacional e paramos na esquina da Augusta. Já estava bem maior e o impacto nos passante na avenida era grande. Cantamos “Fora Temer!” e “Não acabou, tem que acabar, EQOFDPM!”. As oradoras com o microfone na frente do ato faziam falações, e às vezes em competição com o potente batuque do Ilú.

Encontrei S, que vestia uma camisa “Salve-se quem quiser”. Vi os fotógrafos A e R, e também G do MPL. Ainda MF, a quem perguntei se este era o novo normal ou se era um ponto de ruptura. Ela duvidou da ruptura e disse que a batalha pelo significado da morte de Marielle paercia perdida, pois até seu primo super reaça postara mensagens em memória de Marielle.

Vi uma camisa da Democracia Conrinthiana, uma da UBES e outra que trazia “Respeita as mana, as mina e as mona”.

Dobramos à direita para descer a Augusta, o que me fez muito feliz. O som da passeata bombou no eco dos prédios e as palavras de ordem ganharam nova dimensão: “Chega de chacina, eu quero o fim da PM assassina”, “Marielle vive, e viverá, pois a mulher preta não pára de lutar!”, “Pisa ligeiro, pisa leigeiro, se não pode com a formiga NAOF!”, “Polícia, fascista, é melhor que não exista!”, “Por Marielle eu digo não, não à intervenção!”, “Foi, foi a UPP, que matou a Claudia, o Amarildo e o BG!”,

Em frente ao clube de comédia Comedians, o povo parou e baldes de tinta vermelha foram aspergidos na calçada e espalhadas com vassouras. A oradora falou de [um certo] comediante que tinha rido de nossas mortes. Ficamos um tempo lá, com falas e batuque. Seguimos.

Chegaram J, G, A e P, depois H e G e M.

Descemos toda a rua até a Praça Roosevelt, onde a escadaria ao lado da delegacia foi lavada de sangue simbólico. Falas finais fecharam o ato, e o Ilú fez um fechamento de ouro, quando as palmas dos manifestantes caíram como gentil orvalho sobre todos. Eram 17:45h.

Alguns avaliaram que faltou certa comunicação visual básica à passeata, tipo faixa de frente e outros indicadores. Quase todos com quem falei esperavam um pouco mais em termos de comparecimento, afinal a urgência é agora intransferível. Alguns esperam que o ato de terça, chamado pelos movimentos sociais e pela Frente Brasil Sem Medo, seja maior. Mas o sentimento de impotência e resignação parece assombrar todo o meu entorno. Terça pode ser legal, mas a iminência de ruptura viria de hoje e não da CUT.

Tomamos uma, tomei o metrô e fui para casa.