15 de março – Ato dos professores

imagem: Henrique Parra

texto: Gavin Adams

15 de março – Professores Municipais

Saí da estação Sé do metrô às 13:30h para ir à Camara Municipal de São Paulo para o ato dos professores contra a previdência de Doria. Depois, seguiria ao ato em homenagem a Marielle Franco, executada no Rio ontem, no MASP, 17h.

Já na estação Sé deu para ver muitas mulheres em grupos, com camisetas ou bandeiras de associações. Clima mais de festa. Andei pela Maria Paula fechada e já de longe vi os balões das centrais e sindicatos. O carro de som estava à toda. Vi no caminho uns 8 moças e moços que vestiam aventais brancos e o corpo sujo de tinta vermelha, envolvidos por correntes. Uma moça levava uma lousa onde se lia “Eu uso livro você usa arma”. Outro trazia uma rosa.

Ontem, durante a sessão dos vereadores, o povo ocupou partes do prédio e do plenário, onde houve golpes de cassetetes e correu sangue. A PM também reprimiu. Repercutiu bastante nas redes. Então tinha muita eletricidade no ar. Achei que havia pouca polícia em volta, mas fui alertado depois que o choque estava do lado. Além disso, os portões da Câmara foram soldados para impedir acesso.

Uma certa nuvem negra me dominava, estava solitário e queria ver gente conhecida na rua. Foi bom sair e não ficar em casa surfando as redes. A morte de Marielle calou fundo e a vulnerabilidade de toda a resistência ficou evidente.

Enquanto esperava econtrar E, dei um giro pela manifestação. De fato o carro de som dominava o centro, mas a concentração estava grande o suficiente para evitar o pior dos gritos. A grande maioria era de mulheres, diria que de 25-40 anos. Apesar dos balões e 2 carros de som indicarem a forte presença sindical, vi muitos cartazes e faixas feitas à mão, inclusive com nomes de escolas. Até um boneco-morcego tinha, em cima de um pau com os dizeres “Constituição? Justiça para quem?”

Os balões no local: APROFEM, FETAM, SINPEEM, SEDIN.

Encontrei M conversamos sobre a situação atual. Comentamos como havia um certo ar de catarse no ar, as pessoas querendo estar juntas, mas que permance a questão de como transformar ganhos de mobilização em ganhos de organização. Ele anotou como uma dinâmica de redes que são os picos, os surtos de interesse, seguidos de esquecimento e desvio de atenção pela próxima atrocidade. Assim, apesar da intensa atividade na rede e repercussões da repressão aos professores e a execução de Marielle, era melhor esperar um pouco antes de avaliar se a bolha tinha sido furada ou se houve um ponto de inflexão e transbordamento. É preciso escalar a resistência, mas para isso precisa de massa crítica. Revidar dentro da lei é um dilema da esquerda institucional, enquanto os insurrecionais estão mais prontos a apostar na ruptura, que, para eles, já ocorreu e que é evidente que o abrigo da lei não vai proteger ninguém.

Chegou E e ele me deu uma atualização das notícias da rede e confirmação do ato no MASP. Parece que a coisa foi meio espontânea, talvez a partir de um chamado do PSOL. Ele me informou que lá na Câmara só havia uma sessão fechada, sem votação. Ele disse também que o metrô estava repleto de manifestantes, e que a estação Anhangabaú estava praticamente fechada de tanta gente.

O calor era intenso e achei que o comparecimento era bom, mas que havia uma certa contradição. A energia geral era boa, as falas eram combativas – mas não de enfrentamento. Muita indignação, muito discurso contra a ação da polícia ontem, mas todos sabíamos que no fundo não representávamos qualquer ameaça. Excetuada a situação de gerar imagens na TV e nas redes, de gerar conversa entre professores de várias unidades diferentes, ou talvez perfurar com o som do carro as paredes do plenário, o fato era que estávamos todos de pé e de braços cruzados. Parecia que o momento pedia mais, mas que aquele formato de mobilização não dava conta. A resistência precisa escalar, mas não está claro ainda exatamente como. Um moço autonomista colocava a questão desse jeito, dizendo que se não tiver revide agora não haverá limite para a repressão.

Mesmo assim dei um giro e anotei as bandeiras que vi: CUT, SINDSESP, EMANCIPA educação popular, umas 3 vermelhas e negras indicando a presença de autonomistas, UJS, PSTU-CSP Mulheres em Luta, CSP-Conlutas, Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe, Faísca, Pão e Rosas, Movimento Socialista Alternativo, Marcha Mundial das Mulheres.

Alguém escreveu à giz no chão: “Professores em luta. Hoje a aula é de cidadania e o asfalto é a lousa!” e “Sem luta não há vitória”.

Vi uma equipe de cinegrafistas da PM registrando o evento. Anotei as faixas presas às grades: “Estamos em greve”, “Abaixo a reforma da previdência”, “Arquitetos da PMSP em greve”, “Auditoria na Previdência”, “Educadores sem medo de lutar. Abaixo o SAMPAPREV #MAIS PSOL”. No geral eram das entidades presentes com mensagens da pauta. Ainda: “Doria para, por amor a SP”!, “E quando, sem condições, ninguém quiser ser professor?” e “Meninos mimados não devem reger a nação”.

Era difícil avaliar o número de manifestantes, mas era grande. Perguntei ao moço do drone o quanto ele achava que tinha, mas ele disse apenas 5 mil. Achei que eram uns 15, talvez tenha chegado a 20 mil. Eram 15h e havia muita gente chegando.

Vimos D do MPL e H das antigas. Encontramos G dos ciclistas e conversamos bastante. Ele tem contato com jovens em seu trabalho e contou um pouco do cenário nas quebradas. Também estava preocupado e emocionado com os acontecimentos. Relatou um pouco do estado atual do movimento ciclista. Falamos também dos dilemas legalistas e insurrecionais da esquerda, dos limites da forma coletivos. O companheiro E relatou como muitos secundaristas estão em depressão depois das ocupações, pois eles moveram o mundo mas não depois tiveram que voltar à mesma sala de aula, sem mudança. Disse ele que também os militantes do MPL foram forte e emocionalmente impactados pela onda de 2013. Ele também nos lembrou que o estudante Edson Luiz foi morto pela ditadura em 1968, quase exatos 50 anos atrás neste dia 15 de março.

Os cartazes traziam as mensagens mais interessantes e orgânicas: “19% que tiro foi esse?”, “Ô prefeito, pode atirar, educador está na rua pra lutar”, “Que saúde é essa? Olha a bomba!”, “Em professor não se bate nem com uma flor”, “Marielle Franco Presente” com dois corações com lágrimas de glitter. Um outro trazia uma fusão de rostos de Doria e Temer, com os dizeres “Eles querem acabar com sua aposentadoria”. Já um carro trazia “Foi deus que me deu”.

Algumas, mas não muitas, palavras de ordem forma entoadas. Aprendi uma nova cadência para o “Fora Doria” e fiquei feliz de ver que gritos de secundaristas tinham sido apropriados pelso professores: “Não tem arrego!”. Os secundaristas presentes cantaram: “O professor é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo”. Além disso, toda a multidão gritou “Fora Holiday!” e “Não acabou, tem que acabar, EQOFDPM!”.

O pai de secundarista que conhecemos em outra manifestação estava lá e o cumprimentamos. Chegou H e conversamos. Ele tem um termo analítico para a situação atual: narco-estado militarizado. A nossa situação é grave e certos arranjos tenebrosos estão a se alinhar. Ele avaliou que existe uma força feminina mais de prontidão, um nervo sensível que está pulsando desde o 13 de março, agravado pela repressão de ontem e a execução no Rio. Ele também contou que crê que a educação pública pode estar experimentando uma nova fase de mobilização graças à crise econômica que fez com que muitas famílias de classe média colocassem seus filhos na escola pública.

O E se encantou com uma moça de uns 18 anos que lia O Capital ali na rua, cercada de seus colegas do Movimento Socialista Alternativo, e fez H fotografá-los.

Vi as camisetas do Juventus, Corínthians, do PSOL, da Rosa Luxemburgo, da Conspiração Socialista, “Feminism is about everyone”, “Educar, a nossa maior rebeldia”, “Gentileza Gera Gentileza”, e “Segurança da Princesa”.

Eram 17:30h e decidimos subir para o MASP. Os professores tinham tirado sair em passeata até lá também, mas não quisemos esperar. Buscamos eu, G, E, e H um ônibus na Augusta. Paramos num boteco onde vimos o Datena dar cobertura – não hostil – às manifestações do Rio e São Paulo.

Seguimos a pé.