15 de março – Ato por Marielle Franco

Imagem: Alice Vergueiro – https://www.facebook.com/alice.vergueiro/photos?lst=616404131%3A662265769%3A1521239942&source_ref=pb_friends_tl

Texto: Gavin Adams

15 de março – Ato por Marielle Franco no MASP

Chegamos E, H e G da Augusta pelas 18h e deu para ver que já estava bem cheio. O vão tomado, e também uma via da avenida. Era bem diferente da manifestação dos professores. Obviamente nenhum sindicato com carro de som e balão, mas o tom era mais circumspecto e emocionado. Parecia ser também mais de classe média, mas a presença da gente preta era notável, e a maioria era de mulheres. Achei que tinha muita gente mesmo que não é militante e arrisquei uma aproximação com 2013, o que foi depois ecoado por alguns amigos. Havia uma sensação de transbordamento, uma vontade de estar junto, algum negócio que era grande e não tinha forma ainda. Depois, a passeata saiu orgânica sem anfitrião puxando.

Logo fui ver uma roda no centro do vão do MASP, onde um microfone expandia muitas falas se sucediam. Muita indignação, revolta e comoção. Vi umas moças negras de tambores mais de lado, e a companheira J relatou depois que era do Ilú e que o som e seus corpos foram emocionantes. Havia muito poder naquele círculo, um vulcão de um magma que emergia aos pulsos e borbotões, numa espécie de reiteração mágica de feroz enunciação. Lembrei de assembléias de guerreiros antes da batalha, ou de performances feministas que já vi, de apelos urgentes da gente negra um inúmeros fóruns passados. Pela primeira vez senti de verdade que o grito renitente do “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar!” irradiava uma pauta que agora sim o Brasil ia entender e abraçar, a partir do vão do MASP, naquelas vozes, naquela multidão.

Li certo pânico geral também, foi uma ficha pesada que caiu, apenas confirmada pelas notícias subsequentes ao longo da noite e do dia seguinte: a munição usada é original e exclusivamente pela PF e é igual à usada na chacina de Osasco em São Paulo em 2015. Isso pode indicar, como diz H, que há um tráfico de munição e armas nas polícias que supre uma rede nacional paramilitar. O narco-estado militarizado de H funcionaria assim.

A cobertura da grande imprensa também tem sido escrota, numa tentativa, em outras circusntâncias, cômica, de se apropriar do fato e dar um verniz pró-segurança. O mais repulsivo é Temer, o Marun e o interventor Braga usarem o evento para reafirmar a necessidade da intervenção. Para isso funcionar, é claro, a execução tem que ser realizada pelo tráfico e não pela polícia ou milicianos. Assim, os criminosos são chamados pela imprensa de “bandidos”, e apenas aos poucos vaza que o mais provável é que sejam milicianos, como dito pelo policial civil chefe da investigação.Vi na TV da padaria uma homenagem escrota e higienizada a Marielle do Video Show na Globo.

Mas certamente furou o barco de Temer, que pretendia capitalizar na “sensação de segurança”. Mesmo que o envolvimento das forças de segurança não seja confirmado, é um gol contra muito espetacular contra a intervenção. Ele pretendia comemorar o aniversário de um mês da intervenção com um “balanço positivo”, foi aconselhado a cancelar a festa, diante da reação negativa da população

Encontrei o amigo F, que não via há muito tempo. Relatou sua emoção também e a percepção de que uma linha foi cruzada, agora ou antes, mas que não vai ter ponto preciso de virada. Disse que é preciso colocar as mulheres à frente e apoiá-las, aprendendo no caminho. Disse que está trabalhando em uma animação para crianças sobre a cultura do medo.

Vi a J, J, N, M de novo, S, E. Havia relativamente poucas bandeiras: LGBT, PSOL, PCR, MTST, UNIAFRO, APEOESP, MAIS, MRT, a Pan Africana (faixas de vermelho, negro e verde, Esquerda Marxista, Coletivo de Mulheres Olga Benário, FAÍSCA, Nossa Classe, PSTU, ANEL, Frente Antifascista São Paulo, Marcha Mundial das Mulheres, o estandarte do AFRONTE, do PSOL roxa, Unidos para Lutar, PDT, EDUCAFRO.

Às 19:40h o povo fechou a segunda via da avenida, o ato inchando. Muita conversa e encontros. Alguém projetou na fachada do MASP um contagem regressiva para “um minuto de aplauso para Marielle”. A galera comprou total a idéia e fizemos um belo período de palmas e gritos para ela.

Vi com E, numa tela de TV montada sobre uma carroça onde se lia “Gentileza gera gentileza”, o Jornal da Globo reportava a execução de Marielle como de autoria de “bandidos”. Fomos até a FIESP (a avenida fechada a esta altura) e nada havia além do sapo inflável que é o mascote da nova campanha da federação contra os juros altos – o sucessor do infame pato. Retornamos.

Tinha muito transeunte passando, a presença visível da polícia discreta, e tive que temperar meu detector de tremores do tipo 2013 pela relativa indiferença dos passantes. Amigos relataram que a mensagem não chegou muito “à maioria” ou o povo em geral. O potencial de espalhamento ainda precisa vencer o discurso oficial e contaminar a sociedade.

Olhei algumas das muitas faixas, quase todas feitas à mão, como os cartazes: “Nossas vidas importam PSOL CWI-CIT”, “Luto e luta por Marielle Franco #MAIS PSOL”, “Quem matou Marielle? Abaixo a intervenção no RJ! Frente Feminista de Esquerda”, “Parem de nos matar, não é um pedido, é uma ordem! Marielle presente”, “Marielle e Anderson. Presente, agora e sempre. RUA”, “Greve 8 M. Contra a violência machista e retirada de direitos”.

Vi uma moça que trouxera seu violino e tocava no asfalto com amigos à sua volta.

Eu e E buscamos a frente do povo que ia inchando a rua e subimos em um canteiro central logo na frente do ato. Queríamos ver toda a passeata, do começo ao fim. Íamos descer a Consolação até a Praça Roosevelt. Foi muito bonito. Deu para sentir que a coisa tinha inchado para muita gente mesmo. A passeata em movimento é mais fácil de arriscar um número de pessoas: a rua dá uma certa uniformidade. Pelo menos 50 mil no local, mas certamente menos que 100 mil.

A frente do ato era formada por jovens negros e negras, de braços dados na frente de uma bandeira Pan Africanista. Entoavam “brancos, racistas, não passarão!” e “Primeiramente a raça! Primeiramente os pretos”. Depois vi alguns autonomistas e bandeiras roxas do PSOL. Passou P e cumprimentamo-nos.

Passou muita gente, e fiquei de olho nos cartazes à mão, quase sempre mais orgânicos: “Desobediência militar”, “A violência que dói é a mesma que desencadeia nossas vozes”, “Quem policia a polícia”, o estandarte “Chega de feminicídio e estupros”, “Quantos mais vão precisar morrer para essa guerra acabar? Marielle Franco”, “Esquerda Unida Antifa”, “Essa história contada assim por cima, a verdade não rima”, “Desobediência civila para corruptos”, “E quem nos protege da polícia?”, “Pelo fim das execuções policiais”, “Nem um minuto de silêncio vale uma vida inteira de luta”.”Viver muito é privilégio de branco”. Um maluco recortou uma janela na cartolina, mostrando seu rosto. A legenda perguntava: “Serei o próximo?”.

Vimos os jovens que liam o Capital em frente a Câmara lá também, caminhando com o povo. De longe vimos os balões das centrais sindicais chegando lá atrás. Foi muito legal que eles tenham vindo até nós, e deu uma engrossada boa no ato.

Teve “Fora Temer!” e muito “NA,TQA, EQOFDPM!” nas palavras de ordem. Também: “Aqui está, o povo sem medo, sem medo de lutar!”, “ô Marielle, tem mais de mil, eu quero o fim da polícia no Brasil!”, algum “Fora Temer!” e “Chega de chacina, eu quero o fim da polícia assassina!”.

Encontramos LR que relatou como se sente, também preocupado. Disse que tinha visto no noticiário e que as locutoras mulheres, dentre elas uma negra, estavam transtornadas com as notícias que tinham relatado, inclusive a execução. Uma senhora, acho que moradora do entorno, conversou com a gente mas não consegui entender exatamente o que ela queria dizer e temi que fosse uma coxinha local.

Na esquina da Augusta com Paulista tinha um improvisado altar, bem no meio do asfalto, com velas e cartazes capengas, incluindo um singelo montinho de pedras, em homenagem a Marielle.

Em frente ao Conjunto Nacional, uma banca teve sua publicidade retificada: Um cartaz luminos que trazia “Uma breve história da humanidade: Sapiens” foi reescrita à spray como: “Uma breve história de Marielle Franco”.

Encontrei A e notei um helicóptero no céu.

Depois de bastante tempo, chegaram os professores, valentes caminhadores. Vi o A, conversamos brevemente. Eram 19:40. J me achou, e, logo depois, com E e TB ciclista, viramos à direita para descer a Consolação. Apesar de energizados pela marcha, estávamos cansados e respiramos fundo.

Conversamos sobre os ciclistas, a situação geral e sobre este diário. Vi as faixas “Frente Alternativa Preta”, “Basta de crimes policiais, fora intervenção federal. Marielle presente. Quilombo Vermelho, MRT e Pão e Rosas”, “Coletivo Feminista ECA-USP”, outra com o distintivo do Palmeiras (talvez o Porcomunas), uma bandeira do Coletivo Democracia Corinthiana. Um estandarte “Vulva a Revolução” fazia evoluções no meio do povo.

Vi várias camisetas interessantes: Fidel, “Lute como uma garota”, o rosto de Lula, Black Panther Party, Direito-USP, uma camisa de futebol da DDR República Democrática Alemã (Alemanha Oriental), da Portuguesa de Desportos (!), do PCO.

Chegamos ao cruzamento da Consolação com Maria Antonia. H sublinhou que este é um ponto aceso de manifestação. Frequentemente a polícia intervém aqui. Em parte por ser perto do Mackienze, em parte por ser um portão para o centro da cidade. Esperamos um pouco para ver o que ia acontecer, pois alguns manifestantes fecharam totalmente o cruzamento, quando a manifestação vinha pela via de descida da Consolação apenas.

Quando paramos, olhei em volta e dei um giro. Notei que os jovens negros ainda abriam a passeata, cantando “poder para o povo preto”. Vi D. O povo cantava “Ei burguesia, aqui é quem tá na rua é a periferia!”. Uma faixa branca grandona que vinha sendo trazida ao alto foi colocada no chão sob aplausos: “onde estão os negros?”.

Na empena do prédio ao lado do posto de gasolina da esquina da Caio Prado, alguém projetava mensagens de apoio. A galera vibra, as letras ficaram grandonas na paisagem.

Eram 21hs quando o ato seguiu e deu uma rachada, alguns grupos ficarm na escadaria e outros seguiram. A via na frente da escadaria da Praça Roosevelt foi ocupada. Fiquei uma meia hora a mais e desencanei. Tinha sido belo e eu estava exausto. A PM estava ausente e achei que a dispersão semmais ia rolar.

Fui a um boteco, comecei a escrever e tomei o metrô para casa.