12 de fevereiro – Carnaval em são paulo

Texto e imagem de Gavin Adams

12 de fevereiro

Repercute muito nas redes o desfile da Paraíso da Tuiuti, no Rio de Janeiro. Seu tema foi a continuação da escravidão hoje e trouxe críticas às reformas trabalhistas. Destaques foram o presidente vampiro, o “vampiro neoliberalista”, com faixa presidencial e tudo; os “manifestoches”, foliões vestidos de pato da fiesp manipulados por mãos gigantes; paneleiros com camisas da CBF. O comentário da Globo na hora foi hilário, tentando disfarçar o explícito das imagens que víamos. Um grupo de uns mil foliões entrou no aeroporto Santos Dumont gritando contra Temer e Crivella.

O 247 dá uma foto de uma faixa em uma ponte próxima à Rocinha: “STF, se prender Lula o morro vai descer”.

Saí à rua e achei que a região da 23 de Maio e Paraíso estavam menos cheias do que ontem, quando a avenida e estação do metrô estavam totalmente tomadas por foliões. Não tomei o metrô em direção ao meu destino em Pinheiros, preferindo a superfície: tomei um ônibus Perdizes e depois o Socorro 856R descendo a Cardeal. No caminho, vi umas 3 camisas da CBF e muitos foliões, mas nada como ontem.

Desci a Arthur de Azevedo a pé depois do meu rolê e vi muita gente fantasiada percorrendo as vias do bairro. Eram 16h. Cheguei na esquina da Simão Álvares com a Teodoro Sampaio e fiquei para ver a aglomeração. Logo percebi que era o “Bloco 77 os Originais do Punk. Ocupe a cidade”.

Era muito interessante: um batuque com guitarra elétrica de punk, uma síntese bastante paulistana. Vi muitos jovens ao redor dos 30 anos, muita camiseta preta, várias de ícones punk: Dead Kennedys, Inocentes etc. A certa altura, o carro irradiou ao vivo a canção “Pânico em SP” e outros hinos do punk ao som da batucada. Calculei umas mil e quinhentas pessoas, no geral aparentemente de classe média.

Vi de imediato uma faixa pequena que dizia “É carnaval, mas foi golpe, com o Supremo com tudo”. De outra forma, nenhuma bandeira ou faixa. Vi uma camiseta “Bloco 77, 1977-2017. Não aceitamos Racistas, Fascistas ou Homofóbicos”.

Vi o cortejo cruzar a Teodoro Sampaio e parei ao lado de um poste para ver todo mundo passar. O locutor perguntava ao povo se eles sabiam quem era o “Picolé de Xixi”. A galera respondeu com “Alckmin, vai tomar no cu” e depois “Doria, vai tomar no cu”.

Deixei todo mundo passar e busquei o Largo da Batata. No geral tinha achado as pessoas do Bloco 77 meio alegres mas não felizes. Talvez seja só meu mau-humor, mas não achei as pessoas radiantes, meio que buscando uma alegria que não estava dentro delas.

Cheguei na Batata descendo a Cardeal e não pude deixar de notar no caminho os catadores com imensos sacos plásticos cheios de latinhas. O consumo de alumínio estava no último, estes catadores fazendo limpeza parcial da folia. Lembrei de Joseph Beuys e sua performance varrendo a rua depois do desfile de primeiro de maio. Alguns ambulantes que vendiam bebidas eram cadastrados (vestiam o abadá da Skol), mas outros não, arriscavam.

No Largo da Batata, outra multidão. Achei mais jovem (15-25), mais classe C ou precariado: muito funk, pagode e até o memorável “Rebolation” de outras eras. Não havia um palco mas tinha um som dominante. Todo o espaço era cercado de tapumes de modo a privilegiar o “Espaço Skol”, que tinha entrada controlada.

O sol estava forte e eu meditava sobre a diferença entre os dois espaços (Punk-Funk), pensando sobre a evolução carnaval-insurreição-revolução.

Busquei um boteco que eu sabia ser meio vazio. Ele é caidão e seboso, com uma tela de som alto na Globo, mas sempre tem mesa para sentar, não importa quão cheio esteja o Largo. Acertei e pedi um Dreher com coca-cola. Escrevi um pouco no caderninho.

De minha mesa, ouvia o som principal e via parte dos tapumes que cercavam a Batata. Via também o trânsito na Teodoro Sampaio logo depois que ela deixa de ser a Pais Leme. Mais de uma vez vi moços dançando e rebolando no meio do trânsito pesado, carros e ônibus passando rente a seus corpos.

Vário s foliões, um gari e dois policiais viream usar o banheiro do lugar.

Lembrei de F na sexta, ele português, que disse que o Brasil incorpora o outro pelo canibalismo. Isso é legal mas apaga o conflito, a oposição que por vezes é necessária para criar mudança. Achei interessante. Foi ele que ontem chamou os blocos de “máquinas de desinscrever”. Malucão. Pensei na purpurina e confeti pisados nos locais onde o carnaval tinha sido e pensei nessa falta de rastro, na falta de inscrição por onde o bloco passara.

Notei também que a campanha anti-assédio estava bem presente com o lema “Não é não”. Vi vários adesivos e decalques, não só em mulheres.

Notei que a Globo irradiava uma novela antiga, e pensei no presente perpétuo que é a televisão, onde o entretenimento sempre gera o apagamento da história. Pensei no carnaval e sua folia perpétua, reciclando sempre antigas meleodias de carnaval (“Mamãe eu quero” tem mais de 60 anos).

Uma jovem de 20 anos veio me perguntar o que eu escrevia e relatei ser uma espécie de cronista das movimentações de rua. Ela se ligou e disse que tinha amigos à esquerda, mas também do MBL. Ela dizia que o Bolsonaro representa o novo, e que o MBL tinha gente legal. Para ela, o Lula é o velho. Ela conhecia e se interessava por Manuela do PCdoB. Não confrontei e busquei encorajar a sua curiosidade: “ouça todo mundo, mas ouça a esquerda também”. Citei o diário que escrevo e fiquei feliz que logo localizamos o site Urucum em seu celular. Falei algo na linha mais genérica da esquerda como diversidade.

Ela acabou por sair fora com suas amigas, que não tinham nenhum interesse em nossa conversa, e deixou contato.

Saí fora às 18:15h e subi a Teodoro e cheguei na esquina desta com a Simão Álvares. Lá tinha chegado o cortejo que eu vira passar antes. O carro de som ainda irradiava, mas o clima era mais de dispersão. Confirmei o recorte 30 anos de classe média, em contraste com o popular na Batata. Achei que continuava meio sério, ninguém se abandonava à cadência da rua.

Ouvi a canção “Hey Ho, Let´s Go”, igual a uma camiseta que tenho. Vi uma bandeira em alemão “Antifaschische Aktion”, que já vi em outras manifestações. Todo mundo cqntou junto “Eu me importo pela paz em todo o mundo”. Vi um cartaz “Barrinhas Veganas” e notei que o vendedor tinha máquina de cartão.

Tomei o metrô na estação Fradique e confirmei o que já tinha visto mais vezes hoje: o metrô desliga escadas rolantes que sobem e usam de outras formas de controlar o fluxo. O ponto não é que se exijam procedimentos excepcionais em circunstâncias excepcionais, mas sim que a falta de funcionários é terceirizada ao usuário na arquitetura do fluxo nas estações. O lucro tem que ser mantido, o conforto do usuário não. Os procedimentos de exceção são agora os procedimentos normais: grades improvisadas, desligamentos de escadas etc.

O vagão do trem estava bem cheio, mas nada como ontem. O mesmo na estação Paraíso, intenso movimento mas sem a aglomeração extrema de ontem. A região da Vergueiro, igualmente, na superfície, estava ok, onde ontem dominava o esmagamento. Vi um moço com uma placa “Seda R$1,50”.

Parei num boteco para uma seleta com guaraná e notei que a tela ainda irradiava algum conteúdo antigo da Rede Globo. Ponderei as agruras de minha mãe com Alzheimer e sua decorrente perda de memória e o presente perpétuo da televisão. Vi na tela a avenida S. Luís e República lotados de foliões. Também a frente do Teatro Municipal ganhou vista érea de grande aglomeração.

Dois PMs, um homem e uma mulher, vieram usar o banheiro.

Paguei e segui a pé para casa.