3 de fevereiro – Missa para Marisa Letícia

imagem e texto: Gavin Adams

 

3 de fevereiro

Foi marcado um churrasco em frente ao triplex do Guarujá, supostamente de Lula. Vi depois parte do vídeo, a idéia foi ótima, pois uma juíza do DF permitiu à OAS que incluísse o imóvel como passivo da empresa em processo. Moro está sob alguma pressão depois de justificar ao auxílio moradia como complementação de salário que não aumentou. Há uma discussão geral sobre os privilégios do Judiciário, que a imprensa em geral parece comprar. Há memes a respeito, dentre eles um que diz, com a imagem da esposa de Moro “Eu Moro com ele, mas recebo a graninha”, e outro que diz “Não dê auxílio moradia a um juiz, ensine-o a pescar”.

Peguei o metrô até a estação Jabaquara e tomei o elétrico 288 até o Terminal Ferrazópolis para ir à missa de um ano da morte de Marisa Letícia. Eram 17h quando embarquei. Na estação Paraíso vi uma enorme multidão de jovens foliões que animavam a estação. Meu vagão ia quente e abafado de tanta gente fantasiada na linha Azul.

Desci em Ferrazópolis e subi a João Basso e alcancei o Sindicato dos Metalúrgicos. Chovia e o dia era meio triste. Consegui me cadastrar e ganhei um crachá: “Gavin Blogue Urucum”. Subi ao terceiro andar e cheguei ao saguão. Estava meio vazio ainda, às 18h. As cadeiras de plástico preto estavam no geral vazias, mas todas com o guia impresso da missa, um A4.

Senti e observei que uma mesa ia ser o altar da missa. As flores, decoração e extensão do guia impresso me fizeram julgar que ia ser missa mesmo, com todas as fases. Temi que fosse só isso, seria chato.

Olhei em volta e vi vários fotógrafos e sindicalistas, algumas camisetas do PT e outra “Eleição sem Lula é Fraude”. Um moço ao violão testava o som cantando Sampa de Caetano Veloso. Vi o fotógrafo Stuckert de terno preto.

Ia enchendo aos poucos vi o Lindbergh Fafrias, depois o Haddad, o JV, e acho que o Chalita. A certa altura chegou o Lula e o bololô se formou. Muitas selfies com as celebridades políticas presentes.

Achei que havia um equilíbrio entre o número de homens e mulheres, e que a idade média parecia variar entre 40 e 50. Calculei no total, umas mil pessoas, quando encheu. Muitos abraços e beijos.

Às 19h começou a “Missa da Esperança”. Quem oficiava era o D. Angélico, que oficiara o velório há um ano atrás. Depois das introduções, sobiu ao tablado o Haddad para a primeira leitura do evangelho, seguido de uma moça que fez a segunda leitura, que era de uma passagem mais ou menos lisérgica do Apocalipse (“a Nova Jerusalém paramentada como uma noiva”).

D. Angélico falou mais longamente sobre os tempos da luta sindical sob a ditadura, sobre Marisa e seu papel. Teologicamente, sua mensagem principal era a vitória da vida sobre a morte, o renascer junto ao pai e obter vida eterna pela passagem desta vida para outra. Padrão desse tipo de missa. Disse que ela tinha apenas mudado de endereço. Disse também que Marisa era vítima, que a sua saúde fora abalada pela perseguição.

A certa altura contou uma anedota. Um missionário perguntou em uma classe de catequese para crianças: “Quem quer ir para o céu?”. Todas as crianças levantam a mão. “Quem quer ir hoje?”, pergunta o missionário. Nenhuma mão se levantou…

D. Angélico falou diretamente a Lula, pediu que tenha cuidado com sua saúde, pediu a proteção de deus a ele.

Meditei sobre a relação religião-movimento: por um lado a comunidade dos irmãos e irmãs é potente, e a extensão natural do deus de amor ao deus da liberdade solidária é bastante conversável. Mas a figura do pai presidindo sobre a igualdade de seus filhos é mais complicada. Unidade, diferença e identidade precisam ser trabalhados mais ainda no campo espiritual tradicional.

Deu-se a comunhão, e, enquanto isso, as pessoas relaxam e conversam entre si. O Suplicy, que não tinha visto chegar, subiu ao tablado e falava a D. Angélico, sentados os dois. O padre ouvia o vereador com perfeita paciência. Vi uma senhora com o jaleco da FUP (Petroleiros) e um cinegrafista com uma camisa do Corinthians, onde atrás lia-se “Dia 15 vote 2”. Vi Aldo Rebelo, Celso Amorim, Boulos. Recebi uma rosa branca no celofane transparente.

Lula subiu ao tablado e falou ao microfone. Lembrou emocionado da vida com Marisa e com o sindicato. Disse que era “fácil falar da morte em abstrato, mas na nossa família era difícil”. Disse que “se há céu, a Marisa certamente está lá”. Chorava e sua voz embargava quando imaginava que ela lhe dizia, como sua mãe fizera: “ô baixinho, a luta continua, viu?”. Relatou sua prisão em 1980, o terror que a imprensa tocou ao início de seu primeiro mandato e lembrou que não pôde experimentar a normalidade dos casais com Marisa devido às demandas do movimento. Disse que “faço hora-extra no mundo pois vivi mais do que minha mãe e meu pai”. “Não estou acima da lei”, mas que “sou inocente então para mim é só uma questão de tempo”. Ironizou ainda “o Moro colocou o triplex em leilão e não me perguntou nada”. Por fim, depois de aplaudido e interrompido pelo povo cantando, encerrou: “O povo pobre vai voltar a ter acesso aos bens que produz”.

Lula encerrou sua fala e o evento acabou. Esperei um pouco ainda, mas as pessoas que se conheciam se abraçavam e se falavam. Eu não conhecia ninguém e não fiquei para o beija-mão.

Eram 20:30h quando alcancei o Terminal Ferrazópolis, tomei o 288 e fui para casa.