23 e 24 de janeiro – Julgamento de Lula em Porto Alegre

Imagem: Alice Vergueiro – https://www.facebook.com/alice.vergueiro/photos?lst=616404131%3A662265769%3A1517010516&source_ref=pb_friends_tl

Texto: Gavin Adams

 

23 de janeiro

Pegamos o aeromóvel, baldeamos para o trem e descemos na estação Mercado no centro de Porto Alegre.

Eram quase 20:30h e estávamos na cidade para o julgamento de Lula. Ainda tinha esperança de pegar o fim da manifestação no centro da cidade, se possível ouvir Lula.

Nos aparatos eletrônicos dos companheiros, chegava a notícia de que havia gente do MBL em frente ao hotel onde Lula ficava, o que o Estadão irradiou pela rede. Contaram-me também que Lula não ia assistir julgamento aqui em POA, mas sim no Sindicato em São Bernardo.

Percebi que o esquema em que eu viera ia me fazer perder todos os eventos: chegamos tarde demais hoje para o ato e amanhã sairíamos cedo demais para o fim do julgamento, mas tarde demais para os atos de São Paulo. Fiquei de mau humor.

Saímos da estação e o calor bateu, e vi gente entrando para tomar o trem. Na rua, muita gente e um cheiro de peixe. Estava bem atrás do carro de som, mas a multidão já se dispersava. Fui ver o que restava.

Logo reconheci as bandeiras do PT local, que trazem a estrela amarela e não branca como em SP. Achei muito notável que aqui o PT aparece muito mais do que em São Paulo. Já é raro ver bandeiras ou camisetas do partido na capital paulistana, talvez exceção feita à Juventude do PT. Mas aqui tinha uma abertura e orgulho que já não via há tempos em São Paulo.

Achei que ainda estavam lá umas 3 ou 4 mil pessoas. O clima era pós-coital, deu para sentir que o ato fora energizante. Tinha uma boa mistura de jovens, militantes e senhoras e senhores.

Muita bandeira do MST, PCdoB, PCO, CUT, APEOESP e PT. Um helicóptero sobrevoava o local e vi um grupo de uns 20 indígernas com seus cocares e calções. Vi mais de uma camisa do Grêmio, o que achei notável, esperava mais do Internacional no meu intervalo total na cidade.

O ato estava em desmonte, o carro de som já ia silente. Notei nele a faixa “campones@s pela liberdade”. Os ambulantes recolhiam seus isopores ou tentavam esgotar seus estoques.

Dei um giro para capturar algumas faixas e mensagens. A frase “Eleição sem Lula é fraude” figurava em cartazes impressos. Outro trazia “Quem não deve não Temer”. Uma bandeira azul (?) do PT e outra colorida LGBT. Vi um tendão e faixão gigantes do PCO.

Um bonecão de 4 metros de Antonio Conselheiro estava estacionado numa travessa. Ao lado o estandarte: “Viva Antonio Conselheiro, Viva Lula!”. Uma faixa: “Em defesa da democracia, fascistas não passarão. É nóis aqui travez”.

Uma moça ria irônica dizendo que a Globo noticiara 3 mil pessoas no ato. Outras pessoas me disseram depois que 30, 50 ou até 70 mil pessoas estiveram lá.

Vi uma senhorinha em pé no banco do canteiro central, segurando um cartaz de letras purpurinadas: “A farsa se repete, Herodes, Caifás e Pilatos. Querem crucificar mais um inocente”. Vi o curioso cartaz no formato criptografado tipo “rebus”, onde letras e desenhos se misturavam para dizer que Atibaia é a terra do morango e que apóia Lula. Vi Lindbergh Farias no meio de um grupo que o tietava e fazia selfies.

Vi uma camiseta com rosto de Salvador Allende, e outra que trazia “Diversas mas não dispersas”, e uma bandeira do MLST. Notei um anúncio que soava muito curioso no contexto do julgamento de Lula: “Promoção – Sua Liga da Justiça Ruffles”.

Vi uma pichação “Nenhum Guarani a menos”, um A anarquista e outra que só pode ser pré-histórica: “Não vai ter golpe”.

Seguimos em busca de um lugar para tomar cerveja e achamos um bar local. A maioria das pessoas no grupo eram do jurídico do PT. Assim, a conversa era meio interna. Frequentemente quem é de tendência ou partido não conversa de política, mas sim de quem ocupa qual cargo ou brigou com quem. Achei que notava uma desconfiança com o movimento social, mesmo um certo desprezo. Faziam pouco do acampamento do MST na cidade. Duvidou-se que 2013 foi uma movimentação de esquerda. A despeito da extrema simpatia pessoal que as pessoas raiavam.

Mas alguma conversa foi saborosa: fiquei sabendo como uma colega deles agora namora Chico Buarque, e conheci detalhes de como o enlace ocorreu. Vários deles se lembraram com saudade do passado Fórum Social Mundial naquela cidade e do dia em que os pelados tomaram o acampamento da juventude e saíram em pêlo palas ruas de Porto Alegre. Fiquei sabendo de alguns que falaram no ato de hoje: Olívio Dutra, Tarso Genro, Boulos, Dilma, Lula.

Fiquei angustiado de passar no acampamento do MST e saí fora umas 21h. Um pessoal da que vinha de lá, na rua, me falou que estava “um clima de Fórum Social”.

Vi muitos jovens, grupos e ônibus estacionados no caminho para lá. Passei ao lado da Federação Gaucha de Futebol e cheguei.

Tive as melhores impressões quando entrei: vinha saindo uma moça morena de cocar, tinha uma tendinha de som que tocava excelente MPB contemporânea, e na frente um outro sound system, de cumbia, que era do “Muy Vaguitos Sound System”. Vibrei.

Logo colou um maluco que recitou para mim versos de sua autoria, falando da luz e da escuridão, com um espetinho da mão. O cheiro de churrasco era intenso, com muitos jovens trançando pela semi-escuridão. Vi a média distância o que achei ser um monumento modernista, mas que depois percebi ser o palco: uma caixa de cimento imensa envolvida por ferragens coloridas.

Dei um giro pelo acampamento e havia muita movimentação. Gente dormindo, cozinhas a toda, muvucas de breganejo. Vi uma faixa que troçava do número 3: “Alô LavaJAto, nós temos o triplex: 183, 195 e 171. #democraciagremista”. Vi uma roda de jovens cantando ao som de pandeiro.

Pensei na questão da escala. Atingir escala nacional exige certos ajustes de logística que acabam por afetar a política cotidiana.

Voltei à entrada do acampamento e dancei cumbia com um grupo de jovens. Depois, deitei na grama e percebi que meu entusiasmo se dissipara um pouco: grande parte das barracas era de parlamentares ou de tendências do partido, muita bandeira da Dilma e na real o acampamento todo era meio improvisado. Depois fiquei sabendo que muitas das barracas que estavam funcionando eram do parque e também restos de eventos passados. Havia lonas do Gatorade e FIFA FanFest, além de barracas como o “Churros do Alemão” (com mumu), “Entrevero do Pão” e a “Barraca do Gianecchini”.

No geral, achei que era consistente com a desescalação da concetração na cidade que a Frente Brasil Popular realizara de última hora: era melhor não vir a Porto Alegre mas engrossar atos nas capitais.

De novo me peguei pensando na noite de hoje, protegido por inúmeros jovens acampados, deitado na relva da noite quente, olhando o céu quase estrelado, cercado da música brasileira, que este poderia ser o último verão do amor antes do cataclismo. Pensei novamente como tenho amigos que acham que estamos à beira de uma ruptura autoritária e outros que julgam que a crise é o novo normal, que a incerteza, precariedade e ambiguidade serão a norma daqui por diante, mas sem tanques na rua.

Pensei como o PT tem se comportado de maneira pequena face a grandeza do momento, que mesmo a defesa de Lula vira um jeito de nada mudar. Fiquei muito impactado com os militantes com quem viera, vai ser difícil avançar questões nas fileiras do PT. É muito infeliz que Lula seja perseguido, pois a esta altura deveríamos estar realizando novos caminhos para a esquerda. Meditei que estamos prisioneiros do binarismo, não só Temer/Lula, mas também Estado/Não-Estado.

Por outro lado, ponderei os erros do PT agora e antes. Depois formulei como um vazio as suas ações, aqui e em São Paulo: luta sem ruptura, barulho sem mordida. Isso ainda vai fazer com que as pessoas fiquem em casa mesmo quando Lula for preso. O PT precisa tomar consciência logo, para o bem do Brasil.

Fiquei ainda mais um pouco quando começou a tocar um remix do Tim Maia Racionais (“We´re gomna rule the world”), mas afinal cansei dos raps subsequentes (a cumbia não voltou) e fui embora.

24 de janeiro

Acordei cedinho e fui checar o acampamento, achando que ia ter caminhada até o TRF4. Mas rolou que não, já havia uma cerca da polícia e forte presença da segurança: cavalaria, cães, escudos e atiradores. O Tribunal estava isolado por um largo perímetro pesadamente guardado. Eram 6h da manhã. Já havia um afluxo de pessoas e o boatos ferviam: ouvia falar de gente que achava que ia ter confusão.

Dentro do acampamento, um grupo grande curtia um axé muito alto, certamente tinham passado a noite em claro. De outra forma, as pessoas despertando e se preparando. No alto-falante do acampamento, mensagens de bom dia e músicas nativistas à gaucha: “eu saí da terra mas a terra não saiu de mim”.

Encontrei a fotógrafa A e ela me contou de sua pernoitada no chão do acampamento. Ela contou o que achava da movida como um todo, e conversamos um tanto no asfalto esquentando. Depois saí em busca de um café da manhã e vi parte do julgamento pela TV. Vi que opositores do ex-presidente tinham erguido um pixuleco de Lula presidiário em um barco no rio Guaíba. Quando falou Zanin, rolou um aplauso e a pergunta: “onde está a prova?”.

Retornei ao acampamento lá pelas 10h e ao chegar vi que o moço do MBL que tem o site de direita “Mamãe falei” estava sendo escorraçado do local. Tinha mais gente e o sol era inclemente.

Logo na entrada um homem segurava um cartaz um cartaz: “Não vou ao enterro do Moro, pois quem enterra merda é gato”. No geral, muita camiseta do PT e do Lula, mas uma outra avisava: “Raiva Mata”.

Trombei com C e A de São Paulo, eternos guerreiros. Vi algumas pessoas com a cuia de chuimarrão nas mãos. Vi camisetas do Kizomba, “JAE Juventude Articulação de Esquerda”, Intersindical, várias da Grúna do Henfil, uma do Ratos do Porão, Diretas Já, do “Movimentos dos Atingidos por Barragem”, “Mulheres de Minas com Lula”, “Petralhas: vamos invadir sua praia”, uma da Manuela do PCdoB, “Direito não se reduz, se amplia”, “Afro Brasil”, “A jararaca está viva e pronta para a festa”.

Fui até a grade e vi o contingente policial. O carro de som da CUT estava logo ao lado e sua arenga não descansava. Apesar do boné vermelho que eu trazia à cabeça, não aguentava o calor e busquei sombra. No caminho vi bandeiras da CONAM, CTB, AMES-RJ, Marcha Mundial das Mulneres, várias do PDT e algumas com adesivos do Brizola, umas três do Brasil e uma de um certo “Movimento Popular Pátria Grande”. Vi ainda uma bandeira do Uruguai.

Vi as faixas: “Lula Triplex do Povo: 2002, 2018 e 2006”, “TRF, Segunda fase do golpe”, “Contra o estado de exceção”, “Lula, as Ilhas estão com você” e uma faixa trazida por umas 10 senhoras e senhores: “1964 contra a ditadura, 2018 pela democracia. Velha Guarda”. Vi o balão da APEOESP.

Vi um bololô e era Jandira Feghali que falava no centro de um punhado de gente. Vi um batuque da CUT e outro da UJS. Vi os petroleiros da FUP em seus jalecos laranjas.

Vi os cartazes “SITRAMICO-SINTRAPOSTOS: Neoescravidão. Cadê aprova contra Lula?”. Outra: “O golpe continua”. Outros: “Lula ladrão, roubou meu coração”, e “Rede Golpe de Televisão”.

Achei uma sombra de árvore onde perto estava um carro cujo rádio irradiava o julgamento. Ouvi a fala do desembargador Gebran. Ouvi rumores que haveria um pedido de vista, mas tinha certeza que a condenação era certa. Fiquei um bom tempo lá. A certa altura, uma mulher dilmista passou e fez sua arenga, pela anulação do golpe etc.

Segui uma equipe da Band que era hostilizada e teve que deixar o local sob apupos.

Às 13h dei um outro giro. Vi o Lindbergh Farias de novo, novamente ao centro de uma muvuca, tietado. Vi uma bandeira grande “Tribo UFRJ”. Vi as camisetas com o rosto de Rosa Luxemburgo, Che, “Hoje eu vou dar PT”, “Golpe só de capoeira”. À venda, presas à grade, camisas das escolas de samba do Rio de Janeiro.

O banheiro químico tinha papel, e às 12h tinha filas nas cozinhas para o almoço.

Fui ao caminhão da CUT, que não tinha parado de gritar desde as 8 da manhã. Ouvi um argentino muito radical, e sua fala destoava do cauteloso discurso petista: todas as outras falas eram de indignação, mas não de enfrentamento. Um dos oradores chegou a declarar: “Se prenderem Lula, todos devemos todos irmos às delegacias e dizer ‘prendam-me primeiro’”. Gleisi Hoffman falou e desapontou a um só tempo.

Vi faixas: “Moro juiz imoral e parcial”, “Lawfare, cadê a prova?”, “Fascistas não passarão. Comitê Catarina”. As camisetas: “Organismo”, “Normal para a gente”, “Mortadela ou caviar: Esquerda sem Estereótipos”, a Mafalda com várias falas, “#desacato10anos”, do Levante Popular da Juventude. Um moço negro numa cadeira de rodas trazia na camiseta: “Haddad, eu acredito”.

Vi bandeiras da UNE, Movimento Negro Unificado, “Autonomia CAT – Missiones”, UBES, Juventude e Revolução.

Vi um moço de saia de estampa indiana e uma fenda que se lhe fazia ver as coxas.

Busquei um relógio e eram 14:45h. A animação das pessoas era admirável, o sol ainda torrefazendo, mas eu tinha que iniciar operações de desengate e sair fora. Na caminhada a pé ainda ouvi de um motorista que me gritou em plena avenida Borges de Medeiros: “A casa caiu!”.

Soube em Guarulhos depois pelos companheiros conectados que o placar tinha sido 3×0. Era tarde demais para ir à República onde tinha havido um ato, seguida de passeata à Paulista, que também perdi.

Meditamos depois eu e a companheira A que neste dia houve muito drama mas nenhuma ruptura. Ela tinha estado nos atos de São Paulo e relatou suas impressões. O novo vai brotar em outro lugar que não o PT, a despeito da gravidade do cenário que vivemos hoje. Molecagens escrotas de amigos na esquerda rolaram nas redes, como se o destino de Lula não lhes dissesse respeito. Ainda está em jogo se vai ser preciso fechamento geral ou a crise permanente.

Depois do metrô, caminhei e cheguei em casa.