17 de janeiro – Segundo Ato do MPL

Imagem Alice Vergueiro: https://www.facebook.com/alice.vergueiro

Texto: Gavin Adams

 

17 de janeiro

Saí da estação Consolação para pegar um ônibus e descer a Augusta em direção à concentração do ato do MPL, marcado para a rua Itália, onde é a residência do Dória. Esperei um tempinho pelo ônibus que afinal chegou e me deixou na altura da rua Áustria. A Augusta muda de nome duas vezes antes de cruzar a Faria Lima lá em baixo. Onde desci, era a Avenida Europa.

Fui caminhando sem saber ao certo onde era o ponto de encontro, já que era altamente improvável que a polícia permitisse acesso à rua Itália. Notei ao caminhar que todas as travessas estavam pesadamente guardadas. Vi um grupo de 5 policiais enquadrarem um joven negro de uns 15 anos. Estavam defronte uma série de concessionárias de alto luxo. Em termos de ambientação, a cena era exemplar.

Ponderei se marcar um lugar incerto de concentração era uma tática para espalhar a polícia e confundir a repressão. A presença policial era bem forte e ostensiva.

Peguei a direita na rua Itália e cheguei à cerca que impedia o acesso, na altura da rua Escócia. Notei doi caveirões e variada fauna policialesca: ROCAM, CHOQUE, viaturas, GCM… Vi a fotógrafa A que chegara cedão, antes do bloqueio, e assim fez imagens lá de dentro da rua. Conversamos sobre Porto Alegre e a sentença de Lula, e também sobre o ato na Paulista no mesmo dia 26.

Fui buscar um lugar provável de concentração e no caminho encontrei dois jovens que também estavam à procura da galera. Ele disse ser do Levante Popular da Juventude, e que se aproximara deste grupo indo a manifestações. Tinha cursado escola construtivista e seu pai era fundador do PT em Osasco.

Cheguei à esquina da Cidade Jardim com a Faria Lima descendo a rua Escócia, e o pessoal estava lá, já fechando o cruzamento. Muita polícia em volta, cercando totalmente a manifestação. Alguém falou em 3 mil homens ao todo. A certa hora desceram uns soldados de balaclava, com cara de poucos amigos, com escudos e atiradores. Alguns não tinham identificação e quase todos a escondiam com a coronha de suas armas ou com o escudo. A mensagem clara era que eles tinham cheque em branco para agredir, pois nunca niguém seria pessoalmente responsabilizado.

Eram 17:50 e logo vi os fotógrafos A e R. Este último me falou que uma moça e dois meninos tinham sido enquadrados pela polícia, que os fotografaram e ameaçaram que se os encontrassem mais tarde na rua os prenderiam. Vi uma moça do MPL negociando com a PM, que pedia a eles que pelo menos saíssem do cruzamento. O movimento não atendeu.

Vi chegar um grupo de autonomistas pela calçada, talvez tivessem vindo do Largo da Batata. Chegaram gritando palavras de ordem, umas 200 pessoas. Ao todo calculei umas 700 pessoas no local, e acho que chegou a mais de mil depois. Bem equilibrado entre moças e moços. Mas politicamente era pouca gente, menos que na manifestação passada. Talvez a questão do local da concentração tenha influenciado, mas o legal teria sido crescer.

Dei o giro arqueológico e anotei faixas e bandeiras:

O faixão negro “Por uma vida sem catracas” era do MPL e fechou a manifestação. A da frente era “4 reais não dá!”. Vi muita camiseta do Passe Livre, uma do Território Livre e uma única “Fora Temer!”. Outra faixa trazia “Doria R$4 ninguém suporta. Aumento não. Juntos.com.br”. Ainda: “Contra o aumento. Contra os cortes nas linhas. DEC-USP. 4,00 nunca”; “Juventude contra o aumento da tarifa. UJS”; “Tira o bico do meu passe livre! UEE, UNE, UPES, AIPG”. Outra faixa: “Unificar as lutas contra o aumento e a privatização do metrô. Esquerda Diário, Nossa Classe, Faísca”.

Vi bandeiras do EMANCIPA (educação popular), PCB, DEC-Livre da USP, UJS, UNE, DE-FATEC, UEE, Juventude e Revolução, ANEL, PSTU. Uma da Ação Antifascista de São Paulo e outra roxa e negra. Vi camisetas das “Mulheres do PSOL”, “Nossa maior rebeldia é a educação”,

Vi duas equipes de cinegrafistas da PM. Chegou um helicóptero.

Começou uma roda de fala livre no meio das avenidas, e muitos moços e moças falaram, sem megafone ou microfone. A maioria era mensagem de luta, e achei que uma das coisas mais preciosas da manifestação de rua é o fórum coletivo de fala e escuta. Um ou outro aproximaram suas falas do Slam.

Encontrei G dos ciclistas e conversamos um pouco. Ele usava uma camiseta do Arrastão dos Blocos. Ele contou que para este ato ele tentara formar um “Black Byke”, ou seja, uma linha de cicilistas que protegiam o fim da passeata, impedindo que as viaturas que acompanham o ato pressionem os manifestantes, garantindo que a cadência será aquela da multidão. G falou também que a defesa de Lula está entre as tarefas históricas de importância, e que, se uma linha mais autonomista não dá atenção à sorte do ex-presidente, a grande parte da esquerda interessa o desfecho de um processo de perseguição política levado à margem da lei.

Encontrei M da universidade e nos cumprimentamos. Encontrei B que é de esquerda e maneja aparatos burocráticos públicos ou semi-públicos. Encontrei a companheira A e trocamos votos de um 2018 possível. O companheiro A veio me cumprimentar, mas, de visual novo, não reconheci-o de pronto.

Às 18:50h finalmente tomamos posição para sair em direção ao Largo da Batata. Tinha muito transeunte passando pelos lados e o MPL panfletava o fluxo. Estenderam a faixa de frente e a marcha se aprumou atrás. A Fanfarra do MAL vinha logo atrás da faixa. Depois de um pouco de caminhada, organizou-se a frente do ato: um cordão humano protegia e dava visibilidade à faixa de frente (essencialmente impedindo que fotógrafos afoitos apagassem a mensagem formando um bololô de corpos encapacetados). Ladeando esta cadeia humana estavam os escudos de madeira, uns 6 ou 7 de cada lado. Assim, um retângulo relativamente vazio se formava defronte à faixa, desenhado por corpos humanos, preservando a mensagem principal do ato.

Um manifesto do MPL foi lido (“A PM e o prefeito impedem-nos de concentrar, fechando o acesso”, e de novo um homem da rua pirou na sua paisagem interna sem ligar com a leitura coletiva da mensagem. Agora sim os batuques se colocavam, e, logo antes de sair, rolou uma briga em frente à faixa, mas eu não soube dizer do que ou de quem se tratava. Durou uns 10 minutos.

O povo saiu em marcha, “Vem, vem, vem pra rua vem, contra o aumento!”. Duas colunas de policiais do Choque, de balaclava e escudos ladearam a passeata dos dois lados. Mas, durante o trajeto, eles não cercaram perfeitamente os dois lados, foi difícil entender a ação. Eram 60 de um lado, 40 do outro.

Em movimento:

“Se você paga, não deveria, pois o transporte não é mercadoria”

“Doria, cuzão, nunca anda de busão!”

“Doria seu arrombado, você só anda de blindado!”.

A marcha seguia animada. Notei nessa hora um moço com a camiseta do PT, outra da . Vi uma camiseta da “Esquerda Marxista”, uma da máscara de Guy Fawkes do filme “V de Vingança”, com os dizeres “Disobey”, uma do Balaio, “UNE Oposição de Esquerda”, outra do MST, outra ainda avisava “Minor Threat”, outra “Mães de Maio”, “Socialismo e Liberdade”, e ainda outra da Juventude do PT.

Vi uma equipe da Gazeta e a moça que fazia streaming ao vivo do CMI. Notei a faixa “Tarifa Zero + estatização . Transporte público e gratuito para todos”. Contei 50 motocicletas da PM na frente da manifestação.

O trânsito ia normal na via da Faria Lima em direção ao Itaim, e o povo do nosso lado cantava “Ô motorista, ô cobrador, me diz aí se seu salário aumentou!”. Mais:

“O povo não é otário, aumenta a tarifa mas não aumenta o salário!”

“Se a tarifa não baixar, o pau vai quebrar!”

Uma moça do MPL acho que fazia um streaming ao vivo, e chegava na cara dos policiais mascarados da coluna e irradiava: “sem identificação e mascarados, o GAEP nos ladeia”. “Vamos discutir a legalidade no Brasil, vamos discutir o direito à manifestação!”. Eram 19:20h e estávamos em frente ao Shopping Iguatemi. Admirei a coragem da garota, pois ela tensionava uma tropa do mal, durante uns 15 a 20 minutos que eu vi.

“Eeeeeeeeeu tô boladão, não vou deixar o Doria aumentar o meu busão!”, cantava a meninada enquanto transeuntes caminhavam na calçada entre os manifestantes e a coluna mascarada da PM. Calculei que uns 1.200 policiais nos cercavam. Contei 18 viaturas atrás da manifestação.

As duas equipes de vídeo da PM estavam cada uma em um lado, e a primeira filmava muito a frente do ato e as atividades de coordenação, enquanto a segunda buscava panoramas mais gerais dos manifestantes. Fiquei atrás de uma delas por um tempo, mas sem grandes revelações: a captura de imagens é burocrática e pré-programada. Busquei em vão uma estética diferente da vigilância na captura.

Eram 19:30h e vi o Ivan Valente na calçada enquanto rasgava o ar “ei, burguês, a culpa é de vocês!”. Pensei que a atitude relaxada da fala brasileira em relação a plurais libera pequenas jóias em termos de palavras de ordem.

Parei numa farmácia e comprei um medicamento, ao som de “Poder popular, poder para o povo, poder do povo, pra fazer um mundo novo”.

Notei que a Fanfarra hoje tinha uma cuíca, o que adicionou uma nota pungente ao batuque e metais. Reconheci B. Vi que o “Black Byke” tinha rolado, uns 10 ciclistas protegiam e fechavam o cortejo.

Paramos na esquina da Rebouças com a Faria lima. Ao sentarmos no asfalto, notei o memorial de uma bicicleta branca atada a uns dois metros do chão. Eram 19:45h e a moça do MPL leu o manifesto do dia lendo o texto ao celular. Queimaram as duas catracas ao som da fanfarra e o povo ficou pulando-as ainda por algum tempo. Ouvi o eco do povo repetindo em jogral o manifesto, rebatendo distante nos prédio vizinhos: “continuaremos pulando as catracas e pegando caronas, 4 reais não dá!”.

Um homem de uns 30 anos, de bermuda, passou e disse aos policiais: “Vocês são do caralho!”. Fiquei atrás das colunas da PM e tentava julgar se estavam eriçadas ou entediadas. Vi um drone. Já a meninada cantou “Você aí fardado, também é explorado!”.

Vi uma bandeira do Levante Popular da Juventude e outra da Frente Brasil Popular.

De repente notei que aquela sensação de olfato aguçado tinha voltado. Cheirava o querosene que incandesceu as catracas de cartolina, cheirava no ar o que eu achava ser vinagre – e eu temia que uma galera já soubesse e eu não que ia ter gás lacrimogênio.

Mas saímos em paz às 20h em caminhada “Mãos para o alto, 4 reais é um assalto!”, e notei um totem luminoso no canteiro central que parecia informar o número de ciclistas que tinha usado a ciclovia local neste dia.

Chegamos ao Largo da Batata e notei a forte presença policial, mas estava cheio de usuário s também. O tráfego era intenso. A estação do metrô tinha uma entrada aberta, mas era vigiada. Dois caveirões nos aguardavam, mais 15 viaturas e muitos soldados. A meninada não se intimidou e cantou forte: “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da policia militar!” e “Sem hipocrisia, a PM mata pobre todo dia!”.

Muitos passantes filmavam com seus celulares. Paramos ainda na Faria Lima, na altura dos bares da Batata. Um manifesto foi lido em jogral. Um novo ato foi anunciado para 26 de janeiro, na esquina da Ipiranga com a São João. “Se a tarifa não baixar, a cidade vai parar!”.

O ato foi encerrado, mas a dispersão foi muito lenta e as pessoas foram ficando por lá. A entrada do metrô era restrita, o que ia afetar o derrame para dentro do sistema. Fiquei na área por um tempo. Ouvi a Fanfarra do MAL tocar o “Bela Ciao”, e muita gente dançou junto. As faixas e bandeiras eram recolhidas, e vi um ou dois relâmpagos cortarem o céu…

Fiquei a pensar se ia rolar um catracaço, o que é usual, mas achei que hoje era melhor não. Quando vi um povo escorrer em direção à marginal, corri junto. Muito ônibus e carros na rua.

Vi a agência do Bradesco com sua vidraça estilhaçada na calçada. Na esquina encontrei C e E, e parei para conversar. Eles me perguntaram como estava a situação. Eles riram da vidraça quebrada e perguntaram: “De novo?!!”. Não segui adiante e fui a um boteco vazio para escrever e esperar, mas depois saí e encontrei J, que assistia a um maracatu na praça. Conversamos sobre a manifestação e ela contou que havia PMs também em andares de prédios ao longo do caminho.

Peguei um ônibus e fui para casa.