11 de janeiro – Ato do MPL

imagem Alice Vergueiro –  https://m.facebook.com/alice.vergueiro

texto: Gavin Adams

 

11 de janeiro

Saí da estação Sé do metrô às 17h, acompanhado de E para ir ao Teatro Municipal para o ato do MPL. O companheiro E tinha visto na internet fotos da presença policial na áera, muito forte. Ele comentou isso com umas moças e moços do Liberdade e Luta, ainda na Sé, esperando o sinal na calçada. Censurei-o por botar medo na meninada, mas eles riram, à vontade. Tinha chovido muito durante a tarde, mas achei que ia secar agora.

Descíamos a rua Direita e um homem caminhava e gritava bem atrás de nós. “Quem tem força no engenho é boi! Ei, boi!”. Em dia de ato parece que a cidade libera uma energia muito louca da população do centro. O moço era agressivo e vinha bem atrás, fiquei pirando que ele pudesse ser um provocador.

Quando chegamos ao Patriarca começou a chover e buscamos abrigo na marquise da loja de roupas em frente à Prefeitura. Desanimamos, achando que ia matar a manifestação. Lembrei de anos anteriores, quando a temporada de chuvas também coincidiu com as jornadas emepelistas.

Passou o pior da chuva e fomos ao Teatro. Muita PM nas cercanias, viaturas, motocicletas e escudeiros. Uma grade cercava todo o teatro e impedia acesso às escadarias. A linha policial, de uns 60 soldados, estava encharcada atrás da cerca. Notamos que a GCM está de uniforme novo, estilo militar verde-oliva. Bizarro para uma guarda civil.

Logo vi a fotógrafa A e o fotógrafo A, e depois o também fotógrafo R. Nos cumprimentamos. Dei um giro e senti o clima. Eram umas 700 pessoas e quase todos jovens. A avaliação final de E foi que tinha uma geração de 20-30, outra de 50-60, mas que os de 30-40 estavam ausentes. Mas notei com alegria que havia gente veterana das lutas que estava dando apoio e ajudando na organização. Tinha uma fanfarra já tocando, e também um batuque.

Vi relativamente poucas bandeiras: Unidade Classista, UJC, Faísca, PSTU, LSR. Outras da UNE, UEE, UJS, o estandarte laranja do RUA. Os atos contra os aumentos da tarifa frequentemente se dividem em esquerda institucional (partidos e facções), autonomistas e anarquistas (às vezes referido como Bloco Negro) e o MPL mesmo. Nem sempre a comunicação é boa entre os grupos. Os institucionais no geral têm material impresso e os autonomistas escrevem mensagens à mão.

Então havia também bandeiras negras e da Ação Antifascista São Paulo, e muita camiseta preta, com alguns panos no rosto. Os autonomistas caminharam à frente do ato durante quase todo o percurso. Vi um guarda-chuva colorido das cores LGBT.

Vi uma camisa do Corínthians e outra do Palmeiras. Vi a faixa “4 Reais não dá!”, que era a faixa da frente, grandona. Outra trazia: “Fim da Repressão. Todo apoio aos trabalhadores argentinos. LIT-QI Liga Internacional dos Trabalhadores PSTU”.

As camisetas estavam mais interessantes: “Lute como uma garota”, “Marcha da Maconha”, “Movimento Cultural Hermelino Matarazzo”, MPL, um Lobo-Mau de canga, Black Panther Party, CCCP, “Gracias Hermanos”.

Vi M na frente do ato, e depois E. R do CMI fazia o streaming ao vivo. S dos JL estava lá também, assim como R, amigo de E. Vi que uma moça do MPL conversava com três PMs no meio da galera.

Eram 18h quando a marcha se aprumou e foi feito um jogral. Leram o manifesto que era repetido pelos manifestantes sentados na rua. A chuva tinha passado e o tempo estava agradável. Durante o jogral, um homem da rua gritava muito alto: “Luis Inácio Lula da Silva!”, abrindo os braços perto daqueles que liam o manifesto. De começo a organização do ato tentou conter a distração, mas logo ficou claro que não ia adiantar nada e deixaram ele se expressar. No comecinho achei que poderia ser um provocador, já que tinha muita PM em volta, mas depois achei que era essa energia que a multidão libera nas pessoas.

O ato seguiu pelo viaduto do Chá e vi uma equipe da PM filmando o movimento. A presença policial era muito numerosa, contei uns 500 soldados mais viaturas de todos os tipos. Vi um drone.

Anotei alguns cartazes: “Doria Patrão”, “Tarifa Zero”, “Aumento Não!”, “R4 no busão não”, “Se a tarifa não baixar a cidade vai parar!”, um raro “Fora Temer” e um misterioso “Eu votei no cinza”. Vi as bandeiras MEPR, PCB, Nossa Classe, Juntos, Balaio, EMANCIPA (Educação Popular), #MAIS, Território Livre, Juventude e Revolução, ANEL, Liberdade e Luta, Território Livre, CCSP PSTU-Conlutas. E lembrou que o MTST tinha lançado uma boa nota de apoio onde prometiam presença no ato, mas não víamos nenhum militante dos Sem-Teto.

As palavras de ordem misturavam novas e antigas cantilenas:

“Se você paga, não deveria, pois transporte não é mercadoria”

“Ih, fudeu, estudante apareceu!”

“Mãos ao alto! Quatro conto é um assalto!”

“Doria, otário, abaixo o empresário!”

Dobramos à direita na Libero Badaró e ganhamos o Largo S. Francisco. Caminhava com R que avaliava como o calendário eleitoral vai afetar a movimentação contra a tarifa, já que a esquerda institucional tende a importar pautas partidárias para dentro do movimento, provocando um descompasso da rua com o gabinete.

Notei nas paredes uns cartazes que comandavam: “Profane”. Ao lado, um A4 xerocado buscava o paradeiro de um moço e um menino desaparecidos.

Seguimos até o Fórum João Mendes e anotei mais faixas: “R$4 Não. DCE-USP”, “Não ao aumento da tarifa. Fora todos eles. PSTU” com os rostos de Doria e Alckmin, “Faísca contra a privatização do metrô e o aumento da tarifa. O Transporte não está à venda. Esquerda Diário”, outras da “União da Juventude Comunista UJC”, uma da LL, uma do vereador (?) Nildo do PSOL. O faixão do MPL que fechava o ato: “Por uma vida sem catracas”.

Vi uma camiseta com o rosto de Lênin, outra do Território Livre, uma “Mães de Maio”, uma regata “Camisa Verde e Branco”, enquanto outra avisava: “Not all it seems”.

Descemos a rua Anita Garibaldi, a Rangel Pestana, passando em frente ao quartel dos Bombeiros.

Vimos M e J, que avaliaram o número de manifestantes em 2 mil. Achava isso também, mas a organização e as redes falaram em 9 mil e até 20 mil pessoas.

“Quatro no busão, quatro no metrô, aumentou a tarifa e seu salário abaixou!”

“Criar, criar, o poder popular!”

“Você aí parado, também é explorado!”

“Pula sai do chão, contra o aumento do busão!”

“Quem não pula quer tarifa!”

Viramos à esquerda na Bitencourt Rodrigues e notei que a Droga Raia estava aberta, mas o centro já meio vazio. Algumas vidraças de banco eram grafitadas. Vi outra equipe de policiais filmando.

Na descida para o Terminal D. Pedro, a manifestação parou e os blocos institucional e autonomista se separaram. Ficamos um tempo sem caminhar, a coisa meio tensa, já que o terminal é um ponto fulcral muito sensível. Em outras ocasiões, já se tentou tomar o terminal. Deu para ver que a manifestação estava gordinha, achei belo. A PM vinha ladeando a manifestação, uns 30 soldados de cada lado. Uma das colunas tinha escudos e atirador.

Fiquei mais na frente do ato, perto da fileiras de escudos de madeira, tipo uns 15 tapumes formando uma barreira na frente de uns 300 manifestantes. Gritava-se muito “Não acabou, tem que acabar, EQOFDPM!” e “É barricada, greve geral, é ação direta que derruba o capital!”, e ainda “1,2,3,4,5 mil, lugar de fascista é na ponta do fuzil”.

Vi nessa hora o homem que gritava seu “Luis inácio Lula da Silva”, ainda irado e urrando, tensionando os policiais.

Afinal seguimos ao som de “Vem, vem, pra rua vem, contra o aumento!” e “Doria, vai tomar no cu”. Eu vi uma camiseta “Poder ao Povo”, mas outra trazia “#bradescomusic”, nas costas. Encontrei D e F, trocamos uma idéia rápida e tensa.

Viramos à direita na Gal. Carneiro, beirando então a praça Rageb Chofhi para passar em frente ao terminal, tomando novamente a direita. O lugar ainda meio cheio, o impacto da manifestação foi ótimo. Pessoas filmavam nas janelas, tinha panfleto na rua e três moças da “Rosa Palmeirão – Casa das Primas” sorriam do balcão. Os manifestantes comemoraram. Do terminal, muita gente nas grades olhando para a gente.

Encontrei M que disse ter esperado a manifestação lá no terminal. Contou que a polícia previamente esvaziou o quanto pôde o lugar. Avaliou que o tamanho da manifestação estava bom, se levada em conta a intensa chuva da tarde.

Paramos de novo e achei tenso, não estava claro o que ia acontecer. Estávamos cercados, e o destino final era o Largo da Concórdia no Brás. Mas os blocos estavam separados, e eu não sabia se corríamos perigo. “Se a tarifa não baixar, o pau vai quebrar!”, “Ô motorista, ô cobrador, me fala se seu salário aumentou!” e “Chega de tarifa e de político babaca, a gente tá na rua por uma vida sem catraca!”.

Afinal seguimos sem maiores incidentes e tomamos o viaduto à esquerda para o Brás. Eram 19:30h. No viaduto, um morador de rua gritava, sozinho “1,2,3,4,5,6, eu estou velho outra vez!”. Vi um helicóptero, que mais ou menos ficou conosco até o fim. Seguimos pela Rangel Pestana até a esquina da Caetano Pinto. Lá fizemos um jogral (“vamos pular todas as catracas de nosso caminho”) e uma catraca foi queimada. Já estava escurecendo e o lugar estava bem deserto.

“Ei, Doria, vai tomar polícia, pois no cu, eu garanto, é uma delícia!”

“Pisa ligeiro, pisa ligeiro, se não pode com a formiga não atiça o formigueiro”

Teve uma comoção nessa hora que interpretei assim: os autonomistas tensionavam uma coluna policial, com atiradores e escudos. Um objeto atingiu um policial, o que provocou a formação de combate da coluna e o aumento da tensão. O bololô se formou.

Depois, uma advogada feminista, M, me falou que viu pessoalmente que o objeto era uma bomba da própria polícia. Ela viu o projétil se aproximar em arco e atingir o rosto do policial. “Escreve aí que não foi pedra de manifestante”. Tudo durou uns 20 a 30 minutos.

Acabou que a passeata seguiu pela outra via (“Deixa passar, a revolta popular!”) enquanto os BB faziam sua barreira de escudos/tapume. Um camelô passou em sentido contrário, mercadoria recolhida e sound system tocando forró. A escuridão e vazio do lugar me deixava muito tenso, a presença policial era ainda numerosa e estávamos sozinhos, cercados.

Vi uma camiseta do Sendero Luminoso, e notei um maluco que vestia uma máscara branca que envolvia toda sua cabeça, como uma múmia ou o Homem Invisível, de óculos. Notei vários skatistas. Estávamos parados, eu no viaduto que corre por cima dos trilhos que saem da Estação Brás. Um moço dizia ao telefone “bem, estamos aqui parados esperando apanhar da polícia”. Muita incerteza.

Avançando pelo viaduto, tem uma entrada da Estação Brás à direita. Uns 20 jovens, depois uns 100, correram para os portões gritando “vamos tomar a estação!”. Um grupo até conseguiu entrar, incluindo fotógrafos, mas as portas foram fechadas. Havia um pequeno contingente policial perto de uma viatura, que não se mexeu. Fiquei um pouco por lá mas depois busquei o Largo, para onde convergia a passeata. Muita polícia cercando.

Fizemos um jogral final, e foi anunciado o próximo ato, dia 17, em frente à casa do Doria. “Amanhã vai ser maior!”. Começou a lenta dispersão, grupos se formando e deixando a praça. Só que a entrada para a estação estava fechada e tinha duas mil pessoas buscando transporte. Fui para lá e vejo a gente chegando e gritar “Abre aí!”. A tensão aumentou e chegaram 25 soldados, com câmera de filmar. Chegaram os BBs com seus escudos e tomam posição.

São 20:30h e uma linha de policiais encarava a multidão. Muita gritaria: “Deixa passar, a revolta popular!”, “Não tem arrego!”. O lugar era meio fechado, muito fácil de cercar e ruim de correr. Fui para cima do viaduto onde conseguia ver bem o que acontecia. A certa altura a polícia disparou bombas de concussão e de gás. O corre-corre seguiu e o lugar brilhou com o clarão das explosões, a luz branca no centro de um anel de fumaça. Contei 11 detonações iniciais. Apesar do muito gás, não houve carga de cassetetes. Toda a tropa em todas a cercania começou a se mover para dispersar a multidão do Largo, mas não vi, de onde estava no viaduto, ela bater.

Essa hora da dispersão é uma das mais perigosas: você está dentro de um perímetro armado, sozinho ou em pequenos grupos, caminhando meio a esmo pela escuridão, já que os portões da estação permaneciam fechados. No caminho de volta, vi muitas viaturas, motos e policiais percorrendo a vizinhança. Sempre há relatos de violência, sendo esta a hora da “vingança” do policial exausto ou nervoso.

Fui achar o metrô, mas a grade estava fechada. Discuti com o segurança, que filmava a pequena multidão do lado de fora, indignada com o impedimento. Outras entradas eram longe e nada garantia que estariam abertas.

Calculei que o melhor era esperar o pior, e decidi caminhar até a Sé de uma vez, ao invés de zanzar pela região em busca de acesso. Ainda perguntei a um senhor e a uma senhora pela situação da estação, os dois no ponto de ônibus, mas não confiei que havia alternativa.

No caminho de volta, vi o homem do “Luis Inácio Lula da Silva”, aplacado e em paz.

Caminhei até a Sé, tomei o metrô e fui para casa.