30 outubro/1 novembro Grande Marcha do MTST

Texto: Gavin Adams

Imagem: Esquerda Diário – http://www.esquerdadiario.com.br/Suspensa-a-liminar-de-despejo-de-ocupacao-em-Sao-Bernardo-do-Campo-com-6500-familias

 

30 de outubro

Tomei o metrô até Jabaquara às 17h, esperei o terceiro tróleibus sair e consegui assento. Depois um outro até Ferrazópolis. De lá, tomei um táxi até o acampamento do MTST para o show de Caetano e outros no acampamento. O motorista contou que tinha sido caminhoneiro até ontem, e que hoje era seu primero dia no taxi. Ele era de São Bernardo.

Cheguei às 19h no acampamento, ainda claro. Nove viaturas da polícia filtravam o acesso. Uma faixa trazia: “Território da Resistência Ocupação Povo Sem Medo. São Bernardo”. Ao pé do barranco da entrada, ainda muitos ambulantes com seus isopores.

Lá dentro, um tendão era o camarim, muita gente em volta. Segui morro acima e cheguei ao lado de um palanque. Não vi carro de som. Avaliei umas quinze mil pessoas, quase todos sem-teto. Não vi bandeiras de partido.

Vi uma comoção subindo o barranco e eram os convidados, que acorreram ao pequeno palco/palanque de cima. Vi de imediato o Boulos, o Caetano, Letícia Sabatella e a Sonia Braga. Presentes também Marina Person, Criollo e Aline Moraes, esta muito celebrada. “Linda, linda!” era entoado pela multidão. Sonia Braga também recebeu o elogio. Vi no palco o Freixo, a Capilé e Paula Lavigne.

Boulos falou primeiro e explicou que a prefeitura do PSDB não permitiu o show acontecer. Puxou palavras de ordem. O som era meio baixo. Falaram também os outros convidados, no geral condenando a proibição do show e chamando para a caminhada do dia seguinte. Quando Criollo pegou o microfone, o povo cantou: “aqui está, o Criollo sem medo, sem medo de lutar”. Caetano falou um pouco, muito baixo e fora da vista do povo. Letícia Sabatella, ao falar, devolveu o elogio da multidão: “lindos são vocês, por ensinarem à sociedade como se organizar”. O Suplicy chegou.

A Sonia Braga, de boné e mochila, tomou o microfone. Logo tira a mochila e solta o cabelo. Eu nem gostei muito do filme “Aquarius”, mas tenho ainda em acesa lembrança a Sonia Braga do Vila Sésamo, que vi muito quando pré-adolescente. O soltar do cabelo foi emocionante e não guardei sua fala. Aline Moraes foi muito celebrada, e disse “vamos continuar, vocês me deram muita vontade de lutar”.

Um acampado ao meu lado gritava muito emocionado “Buenas noches, Aline! Te amo muito!”. Boulos anunciou a presença de Suplicy e disse que ele ia passar a noite no acampamento para sair de manhã em marcha com o povo. A presença de Emicida foi anunciada e ele falou um pouco, cantou/falou em cadência, chamando a certa altura um “Aqui está, o povo sem medo, sem medo de lutar”. Disse “a casa é o básico, não é um sonho” e “ou é pra todo mundo ou não é pra ninguém”.

Anunciaram o fim do ato lá pelas 19:45h e fui buscar alojamento para a marcha da manhã, marcada para 6h. Na saída do acampamento, 12 viaturas e 15 soldados da Policia Municipal, com atiradores.

1 de novembro

Cheguei às 5:30h no acampamento do MTST para a grande marcha até o Palácio do Governo em São Paulo.

Já ouvia um batuque ao subir o morro, o acampamento ainda envolvido pelo escuro. O povo já ia desperto, iluminado por luzinhas de natal e pelos celulares junto ao rosto. Muitas mulheres, tanto jovens quanto senhoras. Vi umas poucas bandeiras vermelhas do MTST e ainda nenhuma de partido. Vi uma faixa: “Só queremos um lar”.

Boulos chegou ao microfone no mesmo palco de ontem e chamou vários religiosos para afazer uso da palavra, “para que esta marcha seja abençoada”: Padre Paulo, Pastor Fábio, Pastor Hélio, Padre Moraes. Foi pouco surpreendente que a caminhada do povo hebreu fosse lembrada por quase todos os religiosos, e “tenho certeza que Jesus caminha entre vocês hoje” foi formulado mais de uma vez. Fizeram paralelo da história social com as histórias da bíblia. “Ressucita-me lutando contra a miséria do cotidiano”.

Um pastor puxou o canto “Minha pequena luz vou deixar brilhar”, que é fácil e todos cantaram. Acenderam-se os celulares dos manifestantes nessa hora, ainda no escuro, e a bela imagem foi muito fotografada, umas 5 mil luzinhas azuis tremulando na madrugada tépida.

Eram quase 6h e começou a clarear. O orador puxou um Pai Nosso coletivo, de mãos ao alto. Meio contrangido, utilizei o truque de erguer o punho cerrado e mantê-lo assim por toda a oração.

Aí o Suplicy falou, e como de costume alongou-se. Ele é muito querido, passou a noite lá, mas pelamordedeus alguém dá um toque no companheiro! Disse que ouviu do rabino Sobel que a palavra justiça social é a expressão mais repetida da bíblia. E para meu desespero, ele se pôs a cantar Blowing in the Wind – todas as estrofes, em inglês!

Um helicóptero sobrevoou o local e provocou reações. Alguns acampados estenderam uma faixa para o piloto ver: “MTST, a luta é pra valer!”. Notei dois drones no ar, e também as placas ou bandeiras dos diversos setores do acampamento, ao redor dos quais cada um deveria acorrer de acordo com a localização de sua barraca. Vi uma equipe da TVT e uns jovens com a camiseta amarela do PSOL, além de um estandarte do Afronte!.

Boulos fez a penúltima exortação motivacional, afirmando que se tratava de uma prova de resistência: “a marcha será lembrada por vocês, quando estiverem dentro de sua casa”. Falou então o moço Josué, que tratou da logística da marcha.

O povo começou a aglomerar no acesso à rodovia e eram mais de 7h quando a marcha de fato ensaiou sair. Mas umas viaturas da polícia barravam a marcha e houve certa tensão até que foram removidas, o Boulos ficou puto. Vi escrito em uma viatura: “Crack, é possível vencer”. Tinha umas 25 motos com policiais logo ao lado.

Eram 7:15h quando o povo escorreu pela rodovia, organizados em filas de 4, segundo seus grupos. Distribuíam-se bonés e alguém soltava fogos de artifício. Cada grupo tinha uma faixa, e eu estava em uma fila do G1 de onde se lia, em uma faixa: “Deixe o mundo mudar você e poderá mudar o mundo”. Vi o ônibus de apoio, com água e assentos para o descanço de quem não aguentasse.

O clima era alegre e parecia uma excursão de escola. Eu tentava conceber o tamanho da caminhada pela frente, sem muita noção da distância. Muita palavra de ordem: “Quem são vocês? Somos Sem-Teto!”; “O povo, na rua, prefeito, a culpa é sua!”; “Prefeito, presta atenção, agora em São Bernardo tem ocupação!”; “Nem recatada, nem é do lar, a mulherada está na rua pra lutar!” e muito “Fora Temer!”. Nos demoramos no asfalto esperando que todo o povo se arrumasse em quatro colunas. Alguns carros – e um ônibus – apoiavam buzinando pela pista oposta, mas outros hostilizavam e gritaram “vai trabalhar!”. Notei três helicópteros no ar. Vi uma equipe da Globo com câmera. Ouvi um batuque lá trás.

A disciplina das colunas era apenas inicial. Não dava para conversar e logo os corpos se misturaram ao caminhar. Alguns estavam preparados para a caminhada, de boné e mochila, como eu. Mas outros vinham de havaiana e cabeça descoberta. Era difícil estimar o número de pessoas, mas achei que pelo menos 10 mil pessoas.

Finalmente saímos caminhando e o carro de som estava perto, com a locução no modo clássico gritado. O povo cantava “A nossa luta, é todo o dia, somos Sem-Teto lutando por moradia”. Cruzamos a avenida Max Mangels Senior e passamos na frente de várias fábricas na rodovia até chegar aos prédios residenciais.

Eram mais de 8:30h quando chegamos à divisa de Diadema: “Aqui tem um bando de louco, louco por moradia” e “Aquele que acha pouco não conhece a noite fria!”. As colunas já se desmanchavam e me afastei do G1, com quem tinha saído. Parei e observei o fluxo um pouco. Faixas: “Se não há paz para o povo não há paz para o governo”; “G6 Não temeremos o governo”. Passou o batuque do G7, o bandeirão de carregar horizontal roxo do MTST, passou o estandarte do Afronte!, uma bandeira “Eu acredito”, um cartaz “não queremos baixaria, queremos moradia!”, outro “Se tu lutas, tu conquistas”.

Tomamos a avenida Piraporinha até o Terminal de mesmo nome. Já caminhávamos a quase uma hora e ainda estávamos em Diadema. O povo na rua recebia bem. Alguém da janela no sétimo andar do Hospital Municipal de Diadema agitava um par de calças azuis, apoiando os manifestantes. Um dos Sem-Teto pegou um microfone de uma loja e puxou palavras de ordem. Vi uma senhora que passou mal e foi socorrida. Acompanhava agora o G13 e ouvi o carro de som irradiar “Apesar de Você”, do Chico, seguido de uma seleção de sambas, incluindo o Bezerra da Silva.

Tomamos a avenida Fabio Esquivel e vi uma moça passar mal no G11. Eram 9:45h. Notei que dentre as camisas de futebol prevaleciam as do Corinthians e do São Paulo, mas vi pelo menos duas do Palmeiras. Minhas notas dizem que vi um carrinho de trem fantasma, mas não me recordo o que seja. As pessoas já acorriam aos bares do caminho para usar o banheiro e comprar água. Fiz o mesmo.

Notei a arquitetura informal das residências de Diadema que via da rua, e anotei os nomes “Bar do Barba” e “Pizzaria C Q Skolhe”. De um colégio chamado Vieira Filho, um grupo de uns trinta alunos gritava “Fora PT!”. Tinham uns 12 anos.

Passamos pelo Terminal Diadema e pensei que o tamanho do esforço da marcha era insano, mas vi que o impacto na cidade era muito importante. Descer a Consolação não teria provocado o mesmo impacto aqui na periferia.

O batuque subiu no carro de som e animou a galera, lá pelas 11hs. A certa altura a palavra de ordem que sempre me constrange: “quem não pula é governo, quem não pula é governo!”. Nunca consigo acompanhar os pulos da moçada, meu ciático já protestando.

Chegamos à avenida Cupecê e ao centro de Diadema. Paramos em uma praça onde um carro de cada G trazia o almoço. Os papeizinhos de presença eram distribuídos aos manifestantes. Os almoços variavam, desde sanduíches até baião de dois. Eu fiquei constrangido de colar em uma fila qualquer sem ser acampado e comi o que tinha trazido na mochila, sentado na calçada. O pé já ardia e me deitei na grama com gosto. Muita gente espalhada pelas ruas e calçadas, visivelmente cansadas. Conversei com uma senhora e sua filha e ela contou que era moradora de Diadema e que estava no centro quando viu a movimentação. Veio apoiar.

Foi difícil levantar e sair pela tarde quente de um mormaço abafado, e alguns já ficaram por lá mesmo. Eram 13:30h quando a marcha de formou novamente e saímos em caminhada. As memórias a esta altura se esfumaram em um transe ambulante, e pouco lembro de detalhes. Recordo-me de bandeiras do MTST, uma da Associação dxs Geógrafxs, algumas do Brasil. Muita gente mesmo filmava a marcha com seus celulares e aparatos, da calçada. Vi L dos Jornalistas Livres. Vi os operários de uma obra imensa comemorarem e acenarem para a gente.

Tomamos a avenida Vereador J de Luca e pelas 14h entramos em São Paulo. Deu para notar pelos prédios, pela frieza das pesoas na rua e pela presença da PM, acintosamente posicionada embaixo do Viaduto Washington Luis. Tomamos a Vicente Rao e, bizarramente, havia na sarjeta inúmeras moedas de 10 centavos, deixadas em fila, por muitas dezenas de metros.

Vi a ponte Estaiada de longe e desanimei ao pensar o quanto faltava ainda. O pessoal conversava muito, mas todo mundo reclamava do cansaço. Cruzamos a Santo Amaro, tomamos a Roque Petroni.

O povo não se intimidou e cantava “Aqui, está, o povo sem medo, sem medo de lutar”, muito “Fora Temer!” e o clássico “Pisa ligeiro, pisa ligeiro, SNPCAFNAOF!”.

Eram 15:15 quando passamos em frente ao Shopping Morumbi. Dobramos à direita na Chucri Zaidan e chegamos à esquina da avenida Morumbi e ao pé da ponte de mesmo nome. Lá encontramos a outra passeata que nos aguardava. Foi bonito ver um montão de gente, talvez umas 5 mil pessoas, que nos saudaram. Vi bandeiras do PSOL, do Brasil, do MAIS, de outras ocupações do MTST: Dandara, Chico Mendes, Palestina.

Passando a ponte e subindo o começo da avenida Morumbi, olhei para trás e vi a poderosa marcha que vinha atrás: muito bonito. O povo acendeu e teve muita animação: o fim estava próximo. Uma senhora perguntou-me se faltava muito, e eu disse que não, tentando não lembrar que a subida da Morumbi é puxada e não acaba nunca.

Muito muro, arame farpado, guarita e casarão nesta via – e também placas de “vende-se”. Ouvi alguém falar: “parece casa mal-assombrada”. Tinha também uma concessionária onde um casal ignorava a maré humana de quase 20 mil pessoas e conversava com um vendedor junto a um carrão, atrás da vitrine. Algumas pessoas no ponto de ônibus, possivelmente empregados do arredor, esperavam inultimente seus ônibus. Vi uma placa “Pai Joaquim. Tenha amor a seus pés. Previsões para 2016”. Achei que falava de meus pobres pezinhos. Eram 15:45h. Vi uma faixa “Pompéia Sem Medo”.

Chegamos finalmente à Capela do Morumbi, que sinaliza o fim da subida. Paramos para esperar o resto da marcha. Descemos então até o Palácio, e o povo aglomerou na frente do portão e puxou palavras de ordem: “Quem são vocês? Somos Sem-Teto. Não entendi. Somos Sem-Teto. Mais uma vez… Somos Sem-Teto!”.

Busquei a mureta de pedra e sentei-me ao lado de um churrasqueiro. Pensei o que fazer enquanto mirava as equipes de reportagem que faziam suas matérias. O céu esteve nublado por todo o caminho, e o mormaço do dia dava lugar a uma brisa que prometia esfriar. Boulos exortava o povo do carro de som e exigia uma audiência com o governador. Eu meditava que a marcha fora um sucesso, talvez 20 mil pessoas na frente do Palácio, uma notável demonstração de força, o esforço militante verdadeiramente de escala bíblica. Pensei que o tamanho ciclópico da marcha ajudaria na construção da determinação do movimento. Mas não pude deixar de pensar como é que toda essa gente ia voltar para casa, e desejei que o movimento tivesse fretado transporte para todos. Eram 16:45h e apenas iniciava-se o embate da audiência com as autoridades.

Como era evidente que não haveria ônibus para lugar nenhum a partir do Palácio, decidi alcançar a estação de trem Morumbi a pé, refazendo a avenida Morumbi, desta vez descendo. Ignorei o meu corpo que clamava por respiro e eventualmente cheguei junto ao rio. Notei a PM armada de fuzil, guardando a estação do metrô.

Tomei o trem até o Terminal Pinheiros, peguei o metrô e fui para casa.