8 de setembro – filme da Lava Jato

Os relatos são parte de uma observação do atual momento histórico e perfazem um diário das movimentações de rua, desde dezembro de 2015; uma observação fina no nível da rua, olhar de formiga construindo análises a partir de fragmentos. Na tradição etnográfica ativista e num esforço benjaminiano, vou recolhendo tudo, como que tentando antecipar o pior porvir, deixando assim um rastro para o aprendizado de futuros intérpretes sobre nossa catástrofe.

Texto de Gavin Adams e imagem da internet

 

8 de setembro

Fui assistir o filme “Polícia Federal – a lei é para todos”. Seu lançamento foi muito antecipado. Ninguém sabe quem são seus financiadores. Resolvi assistir o filme no cine Pátio Higienópois, esperando ver reações do lado coxinha, já que as mobilizações de direita estão ainda mais escassas que as da esquerda.

Paguei uma meia de R$17 para a sessão das 19h. Uma rápida olhada no platéia indicava uma presença importante de idosos, mais casais mais jovens. Contei 100 pessoas.

Foi interessante pois os filmes publicitários atendiam precisamente os grupos presentes: a Prevent Senior, que é um plano de saúde para pessoas mais velhas, e pelo menos dois filmes longos do mercado imobiliário. Um deles era arrojado, da GAFISA, tentando vender a região do centro em termos mais genéricos: “os jovens já estão mudando para o centro”, “a segurança está mudando”, muito sobre a diversidade da região central. Entrevistavam dois proprietários de restaurantes (Bar da Onça e da Casa do Porco) e um fotógrafo. Ponto central: “diversidade”. Já o outro filme era mais específico, um conjunto já pronto – o “Jardim das Perdizes”. Mote principal: localização e segurança – “é possível morar em São Paulo com segurança”.

O filme em si é convencional e chato. A narrativa geral é a evolução das investigações da Lava Jato, do ponto de vista da PF. O que pareceu despertar interesse era reconhecer na tela eventos jornalísticos: o japonês da Federal, o hipster da Federal, a mulher do Moro (“ela é mesmo bonita!”), os áudios da Dilma e do Lula e coisas assim.

O viés é bem propagandista e anti-petista, e a premissa principal é idêntica à do filme Tropa de Elite: a polícia é virtuosa e todos os paisanos são corruptos; a polícia vê tudo, prende e “eles soltam”; a violência é virtuosa: “o problema é a caneta”. A aliança que eu vi nas manifestações coxinhas estava desenhada também no filme: Polícia-Judiciário-Jesus.

Dava muita vontade de gritar “então prende o Aécio!” nas numerosas vezes em que se dizia “ninguém está acima da da lei” ou “queremos ajudar o Brasil”. As ilegalidades da operação passam em branco, e indício passa por prova – o crime de Lula é ter feito palestra em países (todos os citados são de esquerda), a empreiteira ganha obra e o BNDES libera a grana.

A escrotice do cantor Roger aparece quando “Inútil” é cantada numa festa-karaokê dos policiais. Isso me fez recordar do fim da ditadura nos anos 80. Assistia na TV um programa de música pop. Assim como o audiovisual, a música estava em plena ebulição com artistas como Titãs, Rumo, Roger, Arrigo Barnabé, João Gordo, IRA!, Lobão, e outros muitos. O programa focava nessa nova música, e dois comentaristas conversavam sobre os vídeos que assistíamos. Se me recordo bem, eram o Maurício Kubrusly e o Ramos Tinhorão. Kubrusly era mais jovem e a favor da nova música, e elogiava justamente a canção Inútil. Tinhorão não gostou, ele mais conservador, do PCB e mais na linha da música nacional de raiz e desconfiado do pop em geral. Eles ficaram discutindo muito o fato de que o clip era bem tosco, e em umas das cenas um dos integrantes da banda mordia uma coxinha, de pé ao balcão, e cuspia sem engolir. Kubrusly fazia uma defesa na linha da sensibilidade punk, que se tratava de uma brincadeira sem maiores consequências para a música, que, naqueles anos pré-Diretas, expressava uma frustração e desconforto com o poder. Tinhorão sustentava que aquilo era parte integral do projeto estético de Roger, que era de niilismo conservador. Nem entro no mérito da discussão, mas é interessante que Roger tenha se revelado um coxinha. Às vezes tento separar rebeldia de ressentimento, revolta de recalque, mas nem sempre dá certo.

O filme alcança uma espécie de clímax com a condução coercitiva de Lula. Ele é apresentado como chefe geral de toda a corrupção e só aparece primeiro em seu apartamento. O filme está à vontade para mostrar o Moro proibindo a filmagem que de fato é feita por ordem do delegado. Os movimentos sociais – MST, MTST e CUT – são apresentados como ameaças à ordem e que iriam conflagrar o país.

Enfim, o depoimento de Congonhas não elucida o mistério de porque Lula não foi levado a Curitiba (aparece desde o começo que “é para sua segurança” o interrogatório no aeroporto). E também não faz jus ao interrogatório como foi de fato conduzido. A íntegra do depoimento está disponível na internet, e é leitura muito incrível. Os diálogos são surreais, e Lula, ao contrário do filme, está bem humorado e faz muitas de suas tiradas.

O filme acaba depois do depoimento e tem um teaser da sequência, o A Lei é para todos 2: aparece o homem da mala de Temer. Risos na platéia. Os créditos são acompanhados de vídeos rápidos, do noticiário: Lindbergh Farias falando contra a Lava Jato, Lula e a sentença da “jararaca”, Dallagnol e outros.

Três pessoas saíram no meio do filme. No geral achei as reações menos entusiasmadas do que eu esperava. Teve aplauso no final, e as conversas eram de aprovação durante a saída. Mas não foi a apoteose coxinha que eu tanto temera em 2016.

Saí do shopping, tomei um ônibus e fui para casa.