17 de setembro – ocupação gigante do MTST

Os relatos são parte de uma observação do atual momento histórico e perfazem um diário das movimentações de rua, desde dezembro de 2015; uma observação fina no nível da rua, olhar de formiga construindo análises a partir de fragmentos. Na tradição etnográfica ativista e num esforço benjaminiano, vou recolhendo tudo, como que tentando antecipar o pior porvir, deixando assim um rastro para o aprendizado de futuros intérpretes sobre nossa catástrofe.

Texto de Gavin Adams e imagem de Alice Vergueiro (https://www.facebook.com/alice.vergueiro?ref=br_rs)

 

17 de setembro

Encontrei E na plataforma da linha Azul do metrô às 15h para seguirmos a São Bernardo ver o ato na nova ocupação do MTST. É enorme e o ato foi chamado em protesto contra um disparo de arma de fogo que atingiu um sem-teto no braço. A arma foi acionada a partir dos prédios de classe média bem ao lado.

Seguimos até o Jabaquara para tomar um tróleibus 288. No metrô, E falou um pouco da ocupação do Pico do Jaraguá pelos guarani, agora encerrada. Ele notou a camiseta de um passageiro, que trazia um macaco estilizado.

Nem esperamos muito pelo trólei e já deslizávamos pela rua dos Comerciários em direção a Diadema e depois São Bernardo. O veículo acabou enchendo e um ambulante anunciou suas balas de goma e amendoim torrado, um real o pacote. Olhamos por quase uma hora a paisagem local, mais pobre em Diadema e mais rica em São Bernardo. Na passagem entre os dois municípios, uma pracinha com uma pirâmide maçônica. Dentro de São Bernardo, muita publicidade oficial municipal na forma de outdoors, placas e faixas. Mas vi uma pichação no muro “Queremos Bom Prato no restaurante do Museu. Bom Prato!”.

Descemos na avenida Faria Lima e, guiados pelo Google, cortamos uma zona residencial para alcançar o acampamento. Cortamos pela rua do Cruzeiro, e notei que a rua Clarice Lispector era uma modesta rua sem saída, tributária da Cruzeiro. Percorremos o viaduto Mario Covas ao longo e por cima das rodovias. Uma névoa fazia baixo o teto de visibilidade, e estava notavelmente mais frio.

Eram 17:15h quando caminhamos ao largo dos guindastes estacionados em um terreno vizinho À ocupação. Subimos a ladeira e chegamos à entrada do acampamento. Ao pé de dois íngremes acessos estavam uns 10 ambulantes vendendo churrasco, cerveja, refrigerantes e salgadinhos, com seus braseiros, isopores e sacolas. Muita gente chegando e um certo clima de festa, uma excitação meio difusa nas pessoas de lá.

Subimos o barranco e ganhamos o acampamento passando por baixo de uma bandeira vermelha do MTST. Era enorme o lugar, muitas e muitas barracas de lona preta e madeirame leve, cordas e plásticos. Alguns com nomes escritos em papelão, com telefone de contato.

A ocupação me lembrou um acampamento romano: avenidas regulares e algumas bandeiras tremulando. Subimos o aclive e vi um tendão com os dizeres “MTST a luta é pra valer!”, e outra “Lutando no presente cuidamos do futuro” e ainda “Fé na luta, venceremos, unidos somos mais fortes”.

Achei que tinha umas 5 mil pessoas no local. Vi uma camiseta amarela do PSOL num jovem de classe média, mas a quase total maioria das pessoas eram homens e mulheres de todas as idades, pobres e pretos. Predominava a bermuda e boné para homens, e shortinho e regata para as mulheres. Não vi faixa ou bandeira (exceto uma verde/amarela) no ato inteiro. Vi camisas do Palmeiras, Corinthians, Gaviões e do Grêmio, mas nenhuma política – o mais perto foi uma “Legião Urbana Dois” e outra: “Willian: a parceria é forte, a curtição é loca, a amizade é eterna”.

O ar estava bem seco e a grama raquítica era pisada junto com um pó vermelho. O carro de som da CUT chegou e foi aplaudido quando um bandeirão do MTST foi desfraldado e pendurado na grade, e também quando o som foi ligado.

Vimos O Boulos subir no carro de som, e também o petista Paulo Teixeira, o Zaratinni, o Suplicy, aplaudido este. Uma moça chamava palavras de ordem: “MTST, a luta é pra valer!”. Vi ao todo umas 4 bandeiras do Brasil presas a mastros improvisados, assim como uma camiseta do MTST. Vi a fotógrafa A descendo do carro de som.

Falou primeiro o Boulos, e a sua fala foi boa. Naquele abertão em aclive, diante de agora umas 10 mil pessoas, a declamação ao estilo sindical fazia sentido. Depois E me deu a dica: as pessoas na ocupação são em sua maioria população em geral, e não militantes. Assim, sua fala sublinhou muito os “guerreiros e guerreiras”, o sonho de ter um teto, os sacrifícios por vir e a justiça da luta. Falou muito mal do prefeito, que se recusou a negociar com o movimento. Falou contra o atirador da véspera, mas insistiu que a melhor vingança era continuar a luta. Falou que não se devia dar atenção àqueles que condenavam a ocupação. “Mesmo aquele vizinho que deve 3 meses de aluguel fala mal”. A fala foi bem motivacional: “os incomodados que se mudem, nós viemos para ficar!”. Ele anunciou 6.500 famílias no local.

Era fácil, de fora, fazer pouco das falas meio pregadoras. O cenário todo convidava a metáforas bíblicas: graças a Sebastião Salgado e ao cinema mundial, as aproximações com o Sermão da Montanha e a travessia do povo Hebreu eram imediatas. Os rostos duros cheio de esperança, a expectativa da primeira ocupação, o salto cidadão-militante, as barracas rasgadas e o pó pisado, tudo isso conspirava para, aos olhos do literato ou do videografista, sacralizar a luta e conjurar a entidade “o povo”. Mas a energia era de verdade, e ver 10 mil pessoas entoarem com alegria e desafio “Pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro” era muito belo e falava direto ao coração.

Falou em seguida o advogado do MTST, e sua fala foi compreensivelmente menos inflamada. Falei com E e concordamos que esperar o Suplicy falar não valia a pena, e que o melhor era negociar o caminho para casa. Ainda demos uma volta geral no acampamento e conversamos um pouco com alguns ocupantes. Caminhamos pela multidão enquanto falava um moço da juventude do MTST, que chamou o dia de luta nacional para terça-feira dia 19. Depois falou o Pastor Hélio. Desta vez a fala era religiosa mesmo, mas com um viés social. Tomou um violão e cantou a canção “Minha pequena luz eu vou deixar brilhar”. Já era escuro.

Acho que, por um lado, o diálogo com o evangelismo vai ser inevitável, e achar quem seja de esquerda nesse campo é boa meta; por outro, há boas entradas para a compreensão da luta social na bíblia. Na teologia, é normal separar o deus do novo testamento, este de amor, e o do velho testamento, este vingativo e punitivo. Mas Jesus separou a vida religiosa da vida econômica (a César o que é de César, e a deus o que é de deus). Moisés não. Moisés define a escravidão do povo hebreu no Egito através da subjugação do trabalho à produção nacional egípcia. A luta e redenção sociais são bem exploráveis aqui, como sabiam os escravos americanos, que se identificavam com o cativeiro no Egito. O blues tem marcada tradição nesse sentido, incluindo a deliciosa “Let My People Go”, que é Moisés interpelando o faraó por seu povo.

Já estava escuro quando fomos esperar o ônibus na rodovia para retornar a São Paulo. Eram umas 18;30h. Muita polícia passando pela rua, motos e viaturas. Descemos na Faria Lima, tomamos um veículo até o Jabaquara e de lá eu fui ao Monte Carlo. Tomei uma e escrevi um pouco.

Saí de lá e fui para casa.