30 de agosto – O jaraguá é guarani!

imagem de Christian Braga

texto Gavin Adams

30 de agosto

Hoje faz um ano do golpe.

Eram 17h quando saí da estação Trianon-MASP do metrô para o Ato contra a anulação da demarcação das terras Guarani no Jaraguá em São Paulo.

A Secretaria da Presidência fora ocupada de manhã pelos Guarani. Todo o andar térreo estava tomado por indígenas e havia uma reza em andamento que só terminou 24 horas depois.

Cheguei no MASP e o vão estava já cheio. Logo encontrei E, e uma dança indígena estava em pleno andamento. Contei umas mil pessoas lá, incluindo um contingente Guarani do Rio Grande do Sul, segundo disse-me E. Vi as faixas “O Jaraguá é Guarani!”, “Juntos Somos Mais Fortes”, “Devolva nossa terra, Temer” e “O povo Guarani existe e resiste”.

Fomos checar a ocupação na Presidência. No caminho, vi pichado em um totem de sinalização: “Fora Temer, Fora Dória, Viva Grafite”.

Umas 500 ou 600 pessoas se aglomeravam na frente e dentro da Secretaria. Vi o fotógrafo R, M e também muitas famílias, crianças e mães, gente de todas as idades. Apesar da presença de muitos apoiadores, a maioria era indígena. Muitos de pintura facial ou corporal, cocares e adornos, arcos, flechas e pelo menos um empunhava maçudo tacape. Notei também muitos cachimbos sendo fumados, tabacos de vários e fortes aromas.

Os fotógrafos estavam em festa, já que os trajes figuravam perfeitos personagens para imagens esplêndidas. “Tem algo de zoológico” comentou E. Era verdade, mas manifestação é para isso mesmo, e a pintura de guerra visa o encantamento do inimigo também. De qualquer forma, era bonito ver tantos indígenas em plena Paulista, em frente ao hotel que faz parede com a Secretaria.

Não havia bandeiras e poucas faixas. Um Guarani trazia uma foto de Alckmin espetada em sua flecha. Vi camisetas “A causa indígena é de todos”, “Keep Calm and Go to Trindade” e “Jaraguá é Guarani”. A Globo chegou com repórter e câmera.

Às 17:30h umas 300 pessoas tomaram a avenida com a faixa “Demarcação Sim, Despejo Não!”. Gritos soavam na noite paulistana, agradavelmente amena depois de muitos dias de frio. A idéia era ir buscar o ato no MASP e retornar à Secretaria com o povo todo.

A presença da polícia era discreta, e 5 motos saíram de onde estavam estacionadas e tomaram a frente.

Caminhamos lentamente atrás das faixas. Vi um cartaz “Comunidade da EMEI Carolina de Jesus apoia os indígenas. #Somos todos Guarani”. Algumas palavras de ordem; “Jaraguá é Guarani!”, “Demarcação Já!”, “Fora Temer!”.

A Paulista ainda tinha muitos transeuntes, e achei que a recepção no geral era amistosa. Um grupo de 4 meninos negros, porém, foi mais ambíguo. Eles levavam cartolinas com carcaças de celulares coladas com durex. Eles riam irônicos e apregoavam seu serviço “assistência técnica!”. Vi um Guarani com uma camisa do Palmeiras. Encontramos M e conversamos um pouco.

Chegamos à altura da loja Marisa, que tem uma enorme tela eletrônica. Nela uma modelo muito produzida e maquiada tinha nas mãos cabides com roupas. O mote da campanha era “De mulher para mulher”. Olhei as indumentárias indígenas à minha volta e meditei sobre como toda a moda é arbitrária. O povo cantava “Jaraguá é Guarani!” enquanto a moça branca na tela rodopiava com diferentes figurinos, muito maluco.

Chegamos ao MASP às 18:15h e trocamos de via. O povo que estava no vão saiu e ganhou o asfalto. Formamos uma bela multidão, que avaliei em 2 mil ou talvez 3 mil pessoas. Vi novas faixas: “Respeten los derechos de los pueblos indigenas de Brasil y del mundo, demarcación yá”, “Anistia Internacional” e “Todo sonho coletivo disputa um lugar”. Vi cartazes “O governo é provisório, nossos direitos são originários!”, “Pelo fim do genocídio e etnocídio”. Vi E conversar com um “comunista palmeirense”, creio que ele é do Porcomunas.

Vi 5 camisetas “Atreva-se a mudar o mundo”, duas diferentes da Frida Khalo, uma “Korn, the serenity of suffering”, outra com letras góticas “Feminism”, uma “James Brown Funk Soul”, outra “Poder para o Povo Preto”, um moleton “Antifascista e outro com “Ação Antifascista São Paulo”, uma camisa do Corinthians “Democracia 1982”. Ainda uma “Adrenalina Paintball”.

Na rabeira do ato, colou uma caminhonete com um boneco inflável de 3 metros, que era um índio fumando um cachimbo. Na frente, uma pequena bateria, creio que chamada “Macunaimada”. Notei que na banca, alguém tinha desenhado chifres e dentes afiados na imagem de Gilmar Mendes, capa da Veja.

Vi um Guarani com uma camiseta “Índios Kaimbé. Somos Raízes Kaimbé. Salão de cabeleireiro Cristal. Bar Cantinho do Norte.” Vi um camiseta da central sindical CTB.

Encontramos AT e D, que comentaram como era possível que o governo despejasse um povo que vivia na região do Jaraguá há 15 mil anos! Vi o ativista do Parque Augusta D e o S dos JL. S reclamou de quem fica em casa trolando quem sai na rua e tenta fazer a luta. “Não tô vendo ninguém aqui”. Vi E do CMI fazendo um streaming.

A passeata no geral foi muito diferente das usuais da esquerda. Não apenas o carro de som estava ausente, mas também a condução da marcha parecia anárquica e espasmódica. Muito chocalho, muita roda de dança, muito fotógrafo alucinado. De repente parávamos para uma dança interminável, às vezes as faixas eram realocadas no espaço, às vezes eram os grupos que se recolocavam no corpo da passeata. M e D comentaram como “não dá para mandar nos indígenas, o tempo deles é outro” e que era assim mesmo.

Depois de muitas paradas e avanços, chegamos à Secretaria da Presidência. Todo o fluxo da Paulista estava fechado, só as transversais continuavam abertas. A Augusta fechada, e a esquina desta com Paulista estava em festa com o povo parado, conversando e dançando. Na Secretaria, a reza continuava forte. Vi cartazes: “Clodiodi tombou, muitos se levantarão!”, “Parque Augusta”, “Contra o Marco Temporal”. E a faixa “A América não foi descoberta, ela foi invadida e saqueada”. Eram 19:15h.

Eu e E fizemos um pit-stop para uma Seleta e retornamos às20:30h. O povo continuava lá, agora informados de que o ministro havia recebido a delegação Guarani mal. A reza dentro da Secrataria continuava forte.

Conversamos um pouco mais e tomei o metrô e fui para casa.