vamos! e cryptoparty – 25 e 26 de agosto

imagem Alice Vergueiro (https://www.facebook.com/alice.vergueiro?ref=br_rs)

texto: Gavin Adams

26 de agosto

Sonhei que um cara ficava muito puto comigo porque T lhe havia dado um relógio que tinha meu nome gravado. Apesar de censurar T por ter feito uma desfeita deste naipe, eu não quis engajar com o cara e dizia “meu, resolve com ela, eu não tenho nada com isso!”. Foi malucão.

27 de agosto

Peguei o metrô para ir ao encontro do Vamos!, que é um movimento chamado principalmente pelo MTST, algo inspirado no Podemos espanhol: não é um partido, não é vertical, algo entre uma plataforma de pautas, um fórum de discussão e assembleia permanente. Não há escassez de cínicos que criticam a iniciativa, mas é notável que ela tenha acontecido. Pelo menos parte da esquerda compreende a necessidade de repensar a relação movimento/instituição, o que certamente não se dá no âmbito da candidatura Lula. O painel de discussão online do Vamos não encorajava muito, e para mim a presença de Vagner presidente da CUT no evento era brochante. Preferia ver a oposição operária de esquerda, mas, enfim, vamos!

Na viagem de metrô, tinha um moço que fazia rimas em troca de trocados. Além do aumento da população de rua alarmante que se vê na superfície, aumentou muito o número de vendedores no metrô, antes relativamente preservado do comércio ambulante. Hoje temos muitos vendedores de hand-spinners, chocolates, fones de ouvido e até mesmo uma lente grande angular para ipad, que é uma gota de acrílico cristalino.

Este moço rimava sua poesia falada ao som de uma base de rap, e era bem esperto. Começou com “Primeiramente Fora Temer”, uma expressão consagrada das mobilizações de 2016, só comparável ao ”grelo duro” da ligação de Lula. Ele era bom e produziu uns 5 sorrisos com sua lábia, e até ganhou um trocado. Disse que era de um coletivo.

Saí na estação Faria Lima às 15h e tinha pouquíssima gente. Vi as barracas montadas, mas vi que ia demorara a começar. Encontrei A, que está envolvido com a turma que revitalizou a equivocada reforma oficial do Largo da Batata, criando e instalando novos equipamentos de convivência. A iniciativa foi um sucesso, conseguiram transformar uma placa de cimento em espaço de convivência real. Naquele momento, estavam a reparar e restaurar os bancos que criaram, já que a subprefeitura se negou a fazê-lo.

A contou que o atual projeto da subprefeitura é desmontar tudo isso e escrotizar o espaço. Ao invés dos confortáveis e inventivos assentos e bancos, mesas toscas de metal foram instaladas no local. Ele me contou que o diálogo com o subprefeito é nulo e que este se filiou ao MBL recentemente, e que o desmonte é ideológico e provavelmente visa dificultar a concentração de pessoas no local. Falamos do cenário político institucional e das eleições de 2018, parlamentarismo e das trevas que desceram sobre o Brasil.

Fui checar a Cryptoparty na Simão Álvares. Esta era uma versão “pocket” do eventão que teve na Casa do Povo em 5 de maio. Oficinas e palestras sobre segurança na rede, criptografia, software livre, TOR e pautas tecnopolíticas em geral. Esta é a galera hacker que está colada no movimento social, e o evento cresce a cada edição. Encontrei M, E, E, R, R e D. Este último trouxe o cachorro e crê que há uma disputa a fazer na camada informacional, que inclui mas não se esgota nas redes sociais, que a esquerda não está fazendo. O imaginar o futuro não está acontecendo nos partidos mas está nessa camada. Ele vê a internet hoje como um território semelhante à América dos Descobrimentos, quando os conquistadores (hoje corporações) davam espelhinhos em troca da terra. Os índios somos nós.

Soube lá que o governo alemão fechou o Indymedia local, que aqui é o CMI. São redes noticiosas alternativas à grande mídia que relatam movimentações e ações dos movimentos social e autonomistas. Parece que, para ser visto combatendo o fascismo, o “centro” precisa atacar também a “extrema esquerda”.

Vi umas duas palestras, uma delas de Sergio Amadeu. Achei que tinha umas 200 pessoas quando estive lá, e, ao contrário do esperado, havia uma saudável presença feminina e negra equilibrando o contingente branco classe média de 25-35 anos.

Retornei ao Largo da Batata e o evento do Vamos! estava mais cheio e interessante. Quando cheguei, o vereador Suplicy falava.

Vi umas mil pessoas no total, mas o mais legal não estava nas falas das lideranças. Vi a fotógrafa A. Vi bandeiras do MAIS, o estandarte laranja do RUA, uma da CUT, outra do Povo Sem Medo – Pompéia. Uma faixa “São Paulo não está à venda, plebiscito já!”. Vi camisetas do PSOL, MLB, Copa do Povo – MTST, UJC (comunista), Corinthians, MST, “Mais escolas menos prisões”.

No geral achei meio branco de classe média, tipo a galera do bem, mas zona oeste 25-40 anos, contrastados com alguns militantes do MTST e indígenas.

Vi uma banca que vendia camisetas com as imagens de Frida Khalo, Mafalda, Pagu, Rosa Luxemburgo, Che, Pepe Mujica, Marx, Malcolm X, a Graúna do Henfil, textos como “Ocupa tudo!”, uma sentença do Grande Sertão: veredas do Rosa, “Viver é lutar!”, “Lutar Sempre, Temer Jamais!”, “Lugar de mulher é na Revolução!”. Dois moços vendiam o jornal “A Causa operária”.

Na tenda principal os falantes estavam em um palco, claramente delimitados da platéia: Sakamoto, Boulos, Suplicy, Sonia Guajajara, Freixo e a moça negra cujo nome evadiu o registro nas plataformas online e que não consegui obter na hora.

A fala do Suplicy, que ouvi ao movimentar-me pelo ambiente, foi combativa etc., mas não pude deixar de notar que o que tinha de novo era a galera LGBTQ que promovia atividade interativa (a Gaymada) ao mesmo tempo que obtinha assinaturas para um abaixo-assinado. Eram uns 100 corpos divertidos de todos os sexos interagindo sem hostilizar as falas ao lado, mas também sem formar platéia para liderança. Achei esta convivência mais potente do que as formulações dos oradores “premium” da tenda principal. A última vez que vi coisa assim foi em 2013.

De forma semelhante mas um pouco menos potente, existia a barraca do samba, ainda aguardando o fim das falas para começar suas atividades. Eram sambistas da luta que já tinham armado seus microfones, mas esperavam a deixa para começar a festa. Seu cartaz trazia “Vem que Vamos”. Outros cartazes homenageavam o bairro do Bixiga, “Salve São Jorge” e “Tem que manjar dos paranauê”. Esta última gíria – saber dos paranauê – certamente deriva de um clássico vinil de capoeira, do Camafeu de Oxossi. A faixa que inicia “Paranauê, paranauê paraná” é um absoluto clássico da capoeira. Já quem ouvia o antigo “Show de Rádio” da Jovem Pan, vai se lembrar de outro LP da mesma época (anos 70) com “Bonbongira jagungoguê, aiê, orerê..”, que é do Joãozinha da Goméia. Enfim, fabuloso que esta palavra – paranauê – tenha ganhado as bocas jovens do país.

Passei no ateliê de AF, que é lá pertinho. Ele faz brinquedos científicos para museus de ciência. Ele estava lá com A e B, a quem contava como, em 1984, tinha concorrido em uma chapa anarquista ao DCE da USP, ele então da Física. Era o Deliriosk, que marcou a renovação da política estudantil contra os partidos hegemônicos da época (PCB e PCdoB). Chegaram em segundo contra a Libelu da época. O ano de 1984 foi o ano das Diretas, ainda durante a ditadura, e as forças de oposição explodiam em multiplicidades promissoras, apenas dois anos depois da fundação do PT, quando este era ainda uma frente ampla de oposições e promessas do porvir. Oposição criativa, ousadia nas formulações de futuro, impacto das novas tecnologias (vídeo caseiro e os inícios do PC), tudo isso abrindo novas e excitantes fronteiras de política e de comunicação. Parte disso floresceu na incrível campanha de 1989, com a “Rede Povo” etc., parte feneceu no comércio (Fernando Meireles).

Conversamos um pouco e saí fora, para Santa Cecília. O assunto lá com D, J, R, B e A foi o Vamos, o fardo da juventude que é taxada de “alienada” e “o futuro da esquerda” ao mesmo tempo, cumbia em relação à salsa, a depressão e militância de hoje, acolhimento e cura na esquerda… Conversamos e dançamos cumbia.

Tomei o metrô e fui para casa.