secundaristas contra a redução do passe estudantil – 24 de agosto

imagem de Alice Vergueiro (ato de 3 de agosto)

Texto Gavin Adams

24 de agosto

Saí na estação Sé às 17h para uma manifestação dos secundaristas contra os cortes no passe estudantil. Logo vi E sentado na escadaria. Havia umas 200 pessoas, mas muitos eram sem-teto e transeuntes ou passantes. Vimos o fotógrafo A, e depois o fotógrafo R.

Algumas faixas já no chão: “Tarifa zero pra a geral!”, “Contra os aumentos”, uma vermelha do Revide “Contra os cortes no passe livre” e “Burguês, banca meu busão!”. Vi uma bandeira vermelha e negra, e mais umas 3 “Pula a catraca”; ainda: uma do PSTU e outra da ANEL. Estava frio e não vi muitas camisetas, cobertas que estavam pelos casacos e abrigos. Uma delas trazia “Passe Livre” e outra “Rage against the machine”. Vi uns cartazes escritos à mão: “Transporte público não é mercadoria” e “Dória, ladrão, devolve o meu busão!”. Vi também um boneco com o rosto do Dória. Às 18h chegaram 4 catracas de isopor.

Na atual baixa geral de mobilização pública, é notável a insistência das meninas e meninos de ir às ruas. Mesmo neste fim de tarde frio, mesmo neste Brasil em derretimento, uma certa energia indomável tomava a juventude ao redor do marco zero da cidade. Tem uma hora que as passeatas começam a repetir e a repercussão muitas vezes só se dá nas bolhas da rede, mas pelo menos em termos de formação e de construção de confiança mútua, parece que está valendo a pena para essas gerações percorrer as vias da cidade. A maioria tinha entre 15 e 25 anos.

Vi uma moça de purpurina no rosto, e um outro menino manejava caneta e caderninho, sentado na escadaria da catedral. Dei uma olhada por cima de seu ombro e vi que ele desenhava com uma bic azul uma mulher nua cuja cabeça explodia em plumas e paetês, ao lado de um caminho que levava a um portal lisérgico. Ele devia ter uns 18 anos.

Não sabíamos qual o destino da passeata, e, como nesse ambiente não há lideranças hierárquicas, o itinerário é decidido na hora. Na roda de fotógrafos, a reclamação geral era a da luz ruim do lugar naquela hora. “Na Paulista que é bom, é super bem iluminado”.

Chegou um contingente que vinha da Santa Ifigênia, e todos cantaram, recebendo-os: “Ih, fudeu, estudante apareceu!”. Pouco depois, às 18:20h, a passeata se aprumou e tomou a via lateral em direção à rua João Mendes. Fecharam o trânsito ali mesmo e sentaram para fazer um jogral. Um manifesto foi lido e repetido pelos manifestantes, que incluiu menção à redução da merenda escolar. Um homem da rua fazia seu próprio texto, diferente do jogral. Muito do povo da rua colou junto, com sua energia anárquica e off-topic. Colou também um homem de uns 45 anos, camisa de gola e manga curta, bojudo. P2 na certa. Acompanhou toda a manifestação. Às vezes me incomoda eu também ter o perfil de policial paisano: homem, 50 anos, barba e careca, calça social.

A passeata tomou seu caminho rumo à João Mendes, virando à esquerda, contornando as costas da catedral, depois de afirmarem em jogral “os ricos não dominarão a cidade!”. Contei uns 300 jovens.

A passeata parou em frente ao Palácio da Justiça, em frente ao Fórum, onde foi lido um manifesto pela libertação de Rafael Braga. O asfalto foi pichado “Libertem Rafael Braga”, e também umas 5 garrafas de Pinho Sol foram aspergidas na calçada do Tribunal, em referência ao desinfetante que Braga carregava na hora de seu flagrante e que contou como porte de substância perigosa. Seis PMs mais seis homens indistintos de terno olhavam tudo acontecer a partir do portão de saída de automóveis. Ficou um cheiro forte no ar enquanto ecoava pelo ar escuro da noite paulistana: “olê, olê, olê olá, Rafael, Braga”, “Justiça fascista!” e “Rafael Braga, tem mais de mil, eu quero o fim da PM no Brasil!”.

Seguimos e o moço do CMI disse que tinha encerrado o streaming ao vivo que fazia, pois a luz não era suficiente. Encontramo M, que nos saudou e tirou uma foto “da dupla”. Passamos pela frente dos Bombeiros e dobramos à esquerda na rua ]anita Garibaldi, que vira Roberto Simonsen até chegar no Pátio do Colégio.

No caminho, notei que a passeata ia bem organizada: uma corrente de uns 40 moças e moços de braços dados protegendo a faixa de frente, o faixão sustentado por umas 10 pessoas ao nível do chão, o povo atrás, com batuque de três, uma outra faixa levada acima das cabeças, mais povo e a faixa de fechamento, com os dizeres voltados para fora. Alguns iam na frente do ato garantindo e corrigindo a posição da faixa, outros faziam a ligação entre as diferentes secções do ato em movimento. Outros caminhavam pelas calçadas panfletando transeuntes e cidadãos em geral. A presença da polícia bem discreta, com 3 viaturas atrás.

As palavras de ordem não foram inéditas, mas bem variadas, desde as consagradas até as menos entoadas:

“Pisa ligeiro, pisa ligeiro, se não pode com a formiga não atiça o formigueiro”

“Dória, ladrão, roubou minha condução!”

“’Passe livre não é esmola, o filho do prefeito vai de Uber pra escola!”

“Trabalhador, preste atenção, a nossa luta é pelo passe do busão!”

“3 e 80, ninguém aguenta!”

“Mãos ao alto, 3,80 é um assalto!”

“Eta eta eta eta eta, se não tiver passe livre vamos pular a roleta!”

“Se você paga, não deveria, pois transporte não é mercadoria!”

“Acabou a paz, mexeu com estudante, mexeu com Satanás – olha o capeta!”

Quando chegamos ao Pátio do Colégio, os fotógrafos ficaram em polvorosa com a excelente luz local. Cortamos o espaço cheio do povo da rua deitado no chão frio, e percorremos a rua Boa Vista, que sempre recompensa o manifestante com poderoso eco:

“Nem recatada, nem é do lar, a mulherada está na rua pra lutar!”

“Tarifa zero quando? Tarifa zero já! Só vai mudar quando o povo controlar!”

“O transporte está uma bosta, está cheio e demora!”

“Dória, recua, o estudante está na rua!”

“1 2 3, 4 5 mil, lugar de fascista é na ponta do fuzil!”

“Olê, olê olê olá, o estudante está chegando e o bicho vai pegar!”

“Quem não pula quer tarifa!”

“Estudante organizado, perigo pro Estado”

“Ei, burguês, a culpa é de vocês!”

Cruzamos o Largo São Bento, com seu equipamento de convivência bem frequentado. Dobramos à esquerda na Líbero Badaró e os trabalhadores da Atento, telemarketing, que fumavam na calçada comemoraram a meninada. Ao chegar à Praça do Patriarca, deu para notar que a presença policial que nos aguardava era muito maior, incluindo umas 10 viaturas da GCM e uns 30 soldados de cara fechada, atrás das grades cercando a prefeitura.

O que foi lindo é que a passeata não parou na frente da Prefeitura, mas passou direto pela Líbero em direção ao Largo São Francisco, cantando “Ei, Dória, vai tomar polícia; pois no cu, eu garanto, é uma delícia!”. Foi muito legal ver o aparato tomar um chapéu da meninada, surpreendida pela manobra.

Contornamos a Faculdade e descemos a rua Riachuelo:

“Autonomia, auto-gestão, é nóis por nóis pela educação!”

Uma janela estendeu uma bandeira com Fora Temer e a passeata vibrou. Metade gritava “Fora Temer!”, mas a outra preferia “Fora Todos!”.

Chegamos à 23 de Maio e fechamos a via. As faixas bloqueavam o trânsito e impediam a circulação. O povo encheu as pistas. Eram 19:25. A comoção foi grande, esta artéria ainda estava bem carregada de veículos. A polícia parecia ter sido pega de surpresa e demorou a se organizar.

Ficamos lá quase uma hora. Houve bastante tensão com motoqueiros e alguns carros. A comoção foi grande. A certa altura, as catracas foram queimadas e os estudantes ficaram pulando as estruturas em chamas, sempre ocasião para fotos dramáticas. Teve jogral e muita conversa. Eu e E cumprimentamos M, que frequentemente vemos em atos. Comentamos dos limites da manifestação de rua e do problema o pouco tempo que os secundaristas têm de se politizar, só três anos antes de dispersar-se pelo Brasil via ENEM. M reclamou que falta os hackers juntarem com o movimento social, e que o teatro é uma forma excelente de fazer a luta. Eu e E garantimos que isso já acontece, mas talvez não na escala necessária.

De uma janela alguém atirou vários ovos que explodiam sobre nós. O E me disse que era uma ocupação dos Sem-Teto.

Afinal a passeata seguiu e subimos a Dr Falcão para ganhar a Patriarca. Notei que a presença policial agora era bem numerosa, com escudos e atiradores nas paralelas. O ato foi até a frente da prefeitura, ainda com a GCM de prontidão, fizeram um jogral final: “o passe é livre, a cidade é livre!”. O boneco de Dória foi queimado, e ardeu muito vivo recostado à grade.

Eu e E esperamos um pouco a lenta dispersão, aguardando para ver se havia sinal de catracaço, como é usual nesse tipo de manifestação. Como nada acontecia, buscamos um bar para uma Boazinha. No caminho vimos a forte presença policial. Depois, em casa, vi que houve repressão a grupos menores, inclusive dentro de um ônibus.

Tomamos duas e fui para casa.