7 e 8 de agosto – Sonhos

Passei a relatar sonhos no diário depois de saber que há muitos companheiros que, como eu, têm sonhado sistematicamente com multidões, conflagração, rua e polícia. Há quem estude os sonhos que as pessoas tiveram logo antes da Segunda Guerra Mundial. Então experimentalmente adiciono meus sonhos à etnografia das mobilizações de rua. Depois de um intervalo de umas quatro semanas, voltei a sonhar em agosto.

Imagem e texto de Gavin Adams

7 de agosto

Sonhei que estava em um assentamento ou terreno ocupado. Tinha muita gente lá, alguns de bermuda vermelha e sem camisa, de havaiana ou descalços. Tinha um prédio grande que era algum tipo de escola ou universidade. Tinha acabado alguma a reunião e muitos outros professores se aglomeravam tentando descer as escadas. Um homem estava muito agitado e nervoso, parecia que ia surtar. Resolvi tomar o elevador e outra moça veio junto. Mas o elevador estava descontrolado e andava também de lado, em velocidade vertiginosa, ao longo do andar: não era possível saber onde íamos. As placas do chão do elevador se soltaram e abriram várias brechas sob nossos pés. Eu não tive coragem de olhar para baixo e enxergar o fundo do poço. A moça teve.

8 de agosto

Ouvi na linha Azul do metrô uma senhora que conversava ao telefone: “Não te contei ainda o meu sonho. Tinha um almoço, e toda a família estava lá. Estava também o Baltazar, mas ele estava todo solícito e paparicava a mulher dele, você precisava ver. Ia buscar comida, fazia o prato… Eu disse a ela ‘nossa, como ele está gentil!’. Aí ela disse ‘é que ele me traiu. Ele me colocou chifres, por isso está assim’. Mas a gente sabe, né, no sonho é sempre o contrário. Eu percebi que é ela: na na vida real, é ela que está pondo chifre nele”.