4 de agosto – Ato autonomista Fora Temer!

imagem de Alice Vergueiro.

Os relatos são parte de uma observação do atual momento histórico e perfazem um diário das movimentações de rua que faço desde dezembro de 2015; uma observação fina no nível da rua, olhar de formiga construindo análises a partir de fragmentos. Na tradição etnográfica ativista e num esforço benjaminiano, vou recolhendo tudo, como que tentando antecipar o pior porvir, deixando assim um rastro para o aprendizado de futuros intérpretes sobre nossa catástrofe.

Gavin Adams.

4 de agosto

Saí da estação Trianon-MASP às 18h para um ato Fora Temer, só que desta vez chamado por um grupo autonomista, a Ação Popular. Parece ser algo novo, pois ninguém ontem parecia saber quem eram. Mas acabei reconhecendo algumas pessoas de outros rolês, incluindo alguns secundas de ontem. Tinha só umas 30 pessoas e dei um giro pelo vão do museu.

Lá perto, ainda embaixo do MASP, tinha um grupo de umas 100 pessoas que homenageavam Mayara Amaral, que foi recentemente assassinada por seu namorado. Ela era música e amigos e parentes faziam uma celebração pública de sua vida.

Contei uns 20 sem-teto deitados no chão do lugar, com ou sem barracas. Logo vi o fotógrafo R. Aos poucos, o ato autonomista encheu um pouco mais, chegando a uns 100 no final. Achei muito interessante a pauta Fora Temer! ter sido assumida por gente deste campo, mas não pude deixar de pensar que é um pouco tarde para esta chamada. A indignação geral com a podridão da política institucional de fato existe, como afirmam, e também parece que o PT e outras esquerdas abandonaram as Diretas e FT! em favor de lutar em 2018. Então, de repente, depois de se recusar a atender esta chamada por meses a fio, a pauta ficou interessante para eles. Mas a baixa adesão lança desafios para a viabilidade desta movida.

Eram 18:30h quando fiz o inventário das bandeiras e faixas. Vi uma bandeira negra e outra roxa com o A anarquista, e mais tarde 2 negras com o dito A. Um ou outro papelão escrito “Fora Temer!”.

Vi dois policiais da Força Tática falarem com o grupo. Não ouvia bem, mas um deles falou algo do código penal, e “eu tenho mestrado em direito, eu sei”. Pensei que a questão fosse a chamada deste ato na rede, que continha frases mais belicosas que maliciosamente poderiam ser retiradas do contexto das chamadas políticas e enquadradas como incitação à violência. Mas parece que rolou aquela atitude que é muito cara à polícia: eles tranquilizam ameaçando. “O ato vai acontecer, mas eu vou zelar pela segurança”.

Um homem de minha idade veio perguntar se o ato ia sair em passeata. Disse que eu não tinha como saber, e saquei que era um P2. Cabelo curto, casaco de couro, sem amigos, eu tive certeza de que já o vira em outras mobilizações na Paulista. Até poderia ser um coxinha local, morador, mas jabuti não sobe em árvore!

Também recebi um panfleto de um grupo muito maluco, que mistura uma estética anarquista com uma salada de pautas de resistência. Acho que se chamam Resistência Brasil. São nacionalistas e patriotas, e “anticapitalistas de direita”, mas todo o resto é de esquerda libertária: anti-estatal, municipalista, armas para o povo… Muito bizarro. Fui informado que eles estão organizados nacionalmente. Achei um péssimo augúrio.

O grupo que chamara o ato se reuniu em roda e tentaram decidir o que fazer: ficar ou sair em passeata. Discutiam o que fazer quando uma moça falou comigo. P relatou que estivera no México por vários meses e que voltara ao Brasil fazia pouco. Relatou de sua angústia com as mobilizações de esquerda dos meses recentes e de como é preciso reinventar tudo de novo. Mesmo este ato algo novidadeiro – anarquistas abraçando o Fora Temer! – lhe parecia mais do mesmo. Ela disse que tinha chorado na avenida em uma passeata e que desde então estava em busca de outras configurações de luta e resistência. Fiquei muito tocado com a sua intensidade e acabei por desistir de seguir com este ato.

Eles desceram a Augusta até a Roosevelt, mas eu tomei o metrô e fui para casa.