3 de agosto – Secundaristas pelo Passe Livre

Os relatos são parte de uma observação do atual momento histórico e perfazem um diário das movimentações de rua que faço desde dezembro de 2015; uma observação fina no nível da rua, olhar de formiga construindo análises a partir de fragmentos. Na tradição etnográfica ativista e num esforço benjaminiano, vou recolhendo tudo, como que tentando antecipar o pior porvir, deixando assim um rastro para o aprendizado de futuros intérpretes sobre nossa catástrofe.

Texto de Gavin Adams e imagem de Alice Vergueiro.

3 de agosto

Cheguei a pé pela Teodoro ao Largo da Batata para o ato dos Secundaristas contra as restrições ao Passe Estudantil. Eram 15h e vi, estacionados perto, umas 60 motos e 50 viaturas, e um total de uns 60 PMs. Mais adiante, uma viatura da GCM. No largo, vi só uns 30 manifestantes, quase todos jovens de 15-25.

Logo vi o fotógrafo R, que me contou das agressões que sofrera no metrô no dia 18 de julho. Tinha-o visto no noticiário a partir de uma tela de padaria, sem som. Ele contou detalhes de repetida agressão por parte de seguranças do metrô, por ocasião de um catracaço. Ele foi agredido 4 vezes por três seguranças, mas um em especial o socou no rosto e o feriu mais de uma vez. R foi à delegacia fazer denúncia e BO, e foi encaminhado também ao IML. Não foi bem tratado, mas o delegado parecia já conhecer o segurança. No geral, mesmo sendo da imprensa, foi classificado como criminoso por sua aparência e sofreu por isso. Comentamos como os seguranças do metrô são mal treinados, não têm cadeia de comando claro e improvisam muito.

Aos poucos foram chegando mais pessoas e dei um giro. Encontrei E, que reparou como o mobiliário, instalado pelo grupo de usuários que essencialmente revitalizou essa placa de cimento que é o Largo, foi retirado por Dória.

Fui informado por outras vias que a tendência mundial da luta é de esvaziamento da socialdemocracia/neoliberalismo, mas também de crescimento do fascismo e do autonomismo/anarquismo. Mas a galera não está super confiante que os ganhos da esquerda libertária estão redundando em ganhos de organização. O acirramento do combate antifas/fascistas está em plena combustão nas ruas de São Paulo. Fiquei sabendo que há duas semanas um nazi foi morto por punks. O noticiário do mainstream foi, como sempre, ambíguo em relação a esta luta, mas o confronto real não é.

Esperei a manifestação encher e acabei encontrando M, A, A, JT, M, R, E, S, V, a fotógrafa A e depois E. Todos mais velhos do que a média do local, pelo menos duas gerações de ativistas presentes apoiando e aprendendo com a meninada. No geral temos um carinho e esperança muito grande pelos e nos secundaristas. A questão da documentação da luta, da memória e transmissão de conhecimento intergeracional apareceram nas conversas. A esclerose da esquerda institucional é tida como dada. A companheira A falou como o Slam, a “batalha” de falas na cadência do Rap, têm aparecido em vários pontos da luta jovem e pode estar vindo a ser uma importante plataforma de fala pública. Hoje teve um evento de Slam na Favela do Moinho: quem foi relatou que foi poderoso.

Eram 17h e fiz um inventário das bandeiras e faixas do local. Poucos eram os cartazes, e as bandeiras eram quase todas da esquerda mais institucional: UNE, UEE, UPES, UBES, “Movimento Nacional Quilombos, Raça e Classe CSP-CONLUTAS”, ANEL e PSTU. Mas vi também uma bandeira anarquista vermelha e negra, duas anarco-feministas (roxa e negra – LDM). Vi faixas, estendidas ou ainda ao chão: “O Passe Livre não é mercadoria. Fenet [Federação Nacional das Escolas Técnicas]”; “Contra os cortes no Passe”; “Burguês, ladrão, banca o meu busão!”; “Não aos cortes no passe. Fora Dória playboy. Revide”; “Passe Livre fica!”, que era da UNE e demais entidades institucionais; e a faixa que veio a fechar a passeata trazia “Por uma vida sem catracas”.

Um cartaz de mão: “Movimento Voz Ativa: Passe Livre fica!”. Outro colado na mesa de ping-pong: “Cuidado: estudante organizado, perigo para o estado”. Uma camiseta da UJS, e outra “Meat is murder”. Um moletom: “Libertação animal, libertação humana”.

Eram ainda 18h e vi uma cena muito peculiar: um trio de soldados da GCM enquadrava um menino negro. Parecia que ele era mudo, e a gesticulação entre eles era intensa. Lembrei de vídeos da guerra no Iraque, onde soldados americanos tentam se fazer entender aos locais que não falam inglês. O moço foi liberado.

O lado autonomista estava bem animado, e muitas palavras de ordem ecoaram pela praça. O absoluto clássico de todas as lutas, dos secundas até o MTST:

“Pisa ligeiro pisa ligeiro, se não pode com a formiga não atiça o formigueiro!”

Ainda:

“Ih, fudeu, estudante apareceu!”

“Acabou a paz, mexeu com estudante, mexeu com satanás! Olha o capeta!”

“Autonomia, autogestão, é nóis por nóis defendendo a educação!”

“É barricada, greve geral, é ação direta que derruba o capital!”

“Não vai ter corte, vai ter luta!”

“Quem não pula quer tarifa!” – este acompanhado dos saltos que eu já não consigo acompanhar!

Mais chamadas, depois na avenida:

“Dória, recua, o estudante está na rua!”

“Deixa passar, a revolta popular!”

“Boi boi boi, boi da cara preta, se não tiver passe livre a gente pula a roleta!”

Mais de um companheiro anotou que eram as meninas que puxavam as formulações coletivas. As meninas claramente já estão na crista do movimento. Abraça, escuta e engrossa com teu corpo a movida das meninas, irmão!

Vi um corre-corre e era o Artur do Val, um provocador do MBL que estavam sendo corrido pelos antifas. Ele grava em manifestações de esquerda e faz pegadinhas e edições maliciosas para humilhar as pessoas em seu canal de youtube. Normalmente ele sai correndo para a PM, que sempre o colhe – por vezes leva um segurança, que é nazista. Só que desta vez ele foi atingido algumas vezes, e correu para a GCM. Mas o sargento ficou puto com ele e deu uma bronca nele. A PM teve que vir e escoltá-lo para fora do ato.

Eram umas 18:30h quando saímos pela avenida. Atrás da passeata contei 5 soldados da PM e umas 5 viaturas. À frente, umas 4 viaturas e umas 20 motos. Uma fileira de motociclistas armados, no começo, apertou muito a gente, acho que querendo livrar uma faixa à direita na via. Foi escroto e opressor. Mas acabaram por sair fora e compor a frente do ato. Mas a garotada não perdoou: “Sem hipocrisia, a polícia mata pobre todo dia!” e “Não acabou, TQA, EQOFDPM!”

Nessa hora vi uma moça linda, jovem e negra, em cima de um patinete elétrico. Ela percorria as bordas da passeata e dialogava com manifestantes, BBs, PMs, motoristas de ônibus, motoristas de carros particulares e a galera em geral. Achei linda a sua mobilidade ágil e sua energia: firme, acolhedora, generosa, militante, protetora, combativa, juvenil e de esperança: é tudo o que a esquerda precisa neste momento. Quem a conheça saúda-a da parte deste velho militante: vai aí, moça! Somos muitos ao teu redor!

Eram 19h e a passeata demorou um pouco a se arrumar de verdade, agora à altura da Arthur de Azevedo. Contei umas 500 pessoas no total. O objetivo inicial era ir até a mansão de Dória no Jardim Europa, mas a PM não deixou e impôs um limite na Avenida Cidade Jardim. Os secundaristas pretendiam entregar um Troféu Corte Inovador ao Dória.

Seguimos pela Faria Lima até o cruzamento com a Rebouças, onde sentamos no asfalto e fizemos um jogral. Duas catracas foram queimadas e muita foto, selfies e outras foram tiradas nessa hora. Uma mulher que passava começou a hostilizar a meninada, gritando “Vai estudar!”. Só que eles revidaram gritando de volta exatamente o mesmo: “Vai estudar!”, como que dizendo que ela precisava entender melhor o que eles propunham. Foi bonito.

Seguimos adiante sem muita novidade, ao som de “Trabalhador, presta atenção, a nossa luta é por educação!”, “Do passe livre, não abro mão, é meu direito, é pela educação!”. Ao passarmos pelo pesadamente guardado Shopping Iguatemi, cantaram “Ei, burguês, a culpa é de vocês!” e “Dória, ladrão, devolve o meu busão”. Alguns de spray na mão deixavam mensagens nas bancas e muros: “lucro = roubo”.

Ainda: “Nem recatada, nem é do lar, a mulherada está na rua pra lutar!”, “Rafael Braga, tem mais de mil, eu quero o fim da PM no Brasil!”, “Ô motorista, ô cobrador, me diz aí se seu salário aumentou!”, “Poder para o povo, poder do povo pra fazer um mundo novo”.

Chegamos à esquina da Faria Lima com a Cidade Jardim e sentamos para fazer um jogral com a leitura do manifesto. Anunciaram que iriam entregar o troféu ao comandante Cunha da PM, já que não podiam chegar até a casa de Dória. Eu ouvia ao longe muita buzina de carro.

Eram 20h e o ato foi encerrado (“amanhã vai ser maior!”) e o povo foi dispersando. Vi um certo número de manifestantes que foi descendo a Cidade Jardim na direção da Marginal. Acompanhei de longe e notei que a polícia, que tinha cercado a concentração final, não vinha seguindo atrás. Essas duzentas pessoas mais ou menos fecharam a via e trancaram o trânsito. Um grupo de umas dez motos da PM até conseguiu chegar junto mas não hostilizaram. O pessoal virou à direita para alcançar a estação do trem Cidade Jardim. Estava claro que iam praticar um catracaço. Corri para ver os primeiros jovens ultrapassar a barreira, logo seguidos de uma onda incontrolável e alegre de secundaristas gritando muito, submergindo as catracas. Os três funcionários do metrô presentes assistiam impotentes, mas um deles filmava com seu tablet.

Os jovens tomaram a plataforma cantando “Se você paga, não deveria, porque transporte não é mercadoria!”. Quando o trem chegou, entraram todos no mesmo vagão com enorme ruído. Eu fui no carro do lado, e pensei que já vi muito trem lotado na vida, mas nenhum com essa energia.

A multidão se esparramou pela estação Pinheiros, correndo pelas escadas e corredores. Um homem de meia idade e camisa da Argentina gritava muito, irado, talvez contra Temer, mas contagiado pela tensão trazida pelas meninas e meninos. Notei que ele tinha uma perna mecânica.

Buscávamos a estação de metrô, e, ao percorrer as muitas escadas rolantes, alguém disparou um extintor de incêndio, que imediatamente levantou uma bruma seca que encheu o profundo poço central. Por alguns segundos, vi corpos jovens aparecendo e desaparecendo na névoa branca, enquanto cantavam “Ih, fudeu,, estudante apareceu!”, ao som de um batuque selvagem.

Já havia alguns seguranças correndo em volta do povo, mas nada podiam fazer. A segurança não é onipresente e não pode fazer face a este número de corpos.

Entramos todos no trem em direção à Luz. Notei um homem sério dentro do vagão, que depois revelou-se um agente de segurança à paisana. A maioria das pessoas desceu na estação Fradique Coutinho. Uns 15 seguranças tinham vindo conosco no trem e desceram também. Alguém tentou acionar um extintor mas foi contida pelos seguranças, que agem com muita truculência e perdem a calma muito facilmente. Teve empurra-empurra e subimos ao saguão antes das catracas, umas 150 pessoas. Teve um jogral, cantaram “Fascistas, fascistas, não passarão!”. Mas a tensão baixou e descemos novamente para seguir viagem até a Paulista/Consolação.

Saí para a rua, tomei um ônibus e fui para casa.