31 de julho – Liberdade para Rafael Braga

Os relatos são parte de uma observação do atual momento histórico e perfazem um diário das movimentações de rua, desde dezembro de 2015; uma observação fina no nível da rua, olhar de formiga construindo análises a partir de fragmentos. Na tradição etnográfica ativista e num esforço benjaminiano, vou recolhendo tudo, como que tentando antecipar o pior porvir, deixando assim um rastro para o aprendizado de futuros intérpretes sobre nossa catástrofe.

Texto de Gavin Adams e imagem de Alice Vergueiro.

31 de julho

Saí pela estação do metrô da Sé para o ato pela libertação de Rafael Braga, que foi preso durante as manifestações de junho de 2013 e depois condenado a 11 anos por porte de drogas. Eram 18:30h e já estava escuro quando cheguei pelo Viaduto do Chá. De longe ouvia-se um reggae, que não era da manifestação, mas de um grupo de jovens bem em frente ao Teatro Municipal. Já havia falas na concentração por Braga e os sons se misturavam no ar noturno.

Logo vi E, que saudei, e fui olhar as faixas e bandeiras. A faixa que depois abriria a passeata trazia “Liberdade para Rafael Braga. Fim do encarceramento e genocídio da população negra. Quilombo Raça e Classe”. Só três bandeiras, uma da ANEL, outra do Levante Popular da Juventude e depois uma do “Movimento Nacional Quilombo, Raça e Classe. CSP-Conlutas”. Muito depois, na Cracolândia, vi uma da “Ação Antifascista de São Paulo”.

Quando há poucas bandeiras e faixas, geralmente tem mais camisetas com mensagens. Anotei algumas: “Eu conheci Deus e ela é negra”, “Movimento Cultural das Periferias”, “Antifascista sempre”, “Foco na missão”, “#mudaaê”, “Sex Pistols”, uma da escola de samba Camisa Verde e Branco, uma do Barcelona, “Instituto Federal de Ciência e Tecnologia”, e uma última “Aquilombe-se”. Encontrei E e conversamos um pouco, comentando a baixa em mobilização desde a segunda greve geral. Depois vi P e cumprimentamo-nos.

A concentração atingiu umas mil pessoas, e pelo menos metade era negra. Muitos jovens de 16-25, mas também outros de 35-45. As falas focaram o racismo e algumas eram críticas da idéia de encarceramento. O contraste entre a condenação de Rafael Braga e a soltura do filho da desembargadora recentemente flagrado com muitos quilos de maconha foi sublinhado mais de uma vez. Aécio e o helicoca também foram mencionados. A violência e racismo da PM foram muito lembrados. Sempre fica uma sensação de urgência quando ouço a gente preta falar publicamente. Eles já estão a sentir o que em outros lugares chamamos de ”fechamento” ou de capitalismo de extermínio ainda por vir.

Saímos em passeata às 19h com destino à Cracolândia e não ao Tribunal de Justiça, como antes previsto. A PM estava em plena ação de varredura nessa parte da Luz e os movimentos decidiram ir até lá apoiar e proteger o povo da rua.

Contornamos o Teatro até o Paissandu e seguimos pela São João. Caminhei ao lado de E, e notamos que a passeata tinha um clima muito particular. O carro de som era pequeno e pouco potente. As pessoas conversavam muito e no geral não tinha muita palavra de ordem. A sensação de que o clima era novo e distinto de outras movidas foi reforçada pelas falas ao estilo do rap. Essa forma discursiva meio melodia meio declamação foi bastante usada. Isso permitiu que não apenas que se superasse as gritarias ao modo sindicalista, mas também que muitos pontos mais sutis da questão negra fossem colocadas, graças às possibilidades poéticas deste tipo de oração, para além da reiteração das palavras de ordem. Os movimentos de esquerda precisam ouvir e praticar mais esse tipo de fala pública.

Mas palavras de ordem as tivemos: “Rafael Braga, tem mais de mil, queremos o fim da PM no Brasil!”, “Por menos que conte a história, eu não te esqueço meu povo, se Palmares não há mais, faremos Palmares de novo!”, “Povo negro unido, povo negro forte, que não teme a luta, que não teme a morte!”.

Entre o Paissandu e a esquina da Ipiranga tinha uma feirinha de calçada, uma pequena muvuca de umas 100 pessoas que vendiam todo tipo de coisas: celulares, cintos, relógios, bugigangas, ventiladores… Muitos deles responderam fala cantada insurgente irradiada pelo carrinho de som. Nunca tinha visto aquela feira antes.

Cruzamos a Ipiranga e avançamos. Havia apenas uma viatura da PM atrás, mais umas motos da CET.

Dobramos na Barão de Limeira e percebi o moço sem camisa que levava um chocalho indígena que agitava sem parar. Seguimos até a Duque de Caxias que ganhamos à direita. Avançamos até a Praça Princesa Isabel, em cuja esquina tinha uma viatura de policiamento comunitário. Um automóvel da PM parou ao lado e desceu um atirador de fuzil, que postou-se na calçada para ameaçar a passeata.

Cruzamos a Rio Branco e aproximamo-nos da praça Júlio Prestes ao som de um vigoroso “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar!”. Chegamos junto à praça, em frente à antiga estação de trem e hoje Sala São Paulo. Na praça Júlio Prestes, estava o povo do Fluxo, que tinha sido expulso de seus acampamentos da alameda Cleveland e rua Helvetia. A passeata parou e combinamos o que fazer: ir até o pessoal do Fluxo e viabilizar que eles voltassem ao acampamento e recolhessem seus pertences. Rogaram muito que não se tirassem fotos ou vídeos do pessoal local.

Vi o vereador Suplicy indo negociar com a PM, e também o Douglas Belchior. A passeata avançou gritando “Que hipocrisia, a guerra contra as drogas mata preto todo dia!”. Dobramos à esquerda na Cleveland e avançamos ao largo de duas fileiras de viaturas e soldados. Paramos na praça e ficamos a uns 50 metros do pessoal do Fluxo, do outro lado da mesma praça. Uma coluna de atiradores veio se colocar na esquina.

As viaturas aos poucos iam se retirando (GCM e PM), e também os caminhões da prefeitura que recolhiam os pertences do povo da rua no acampamento principal, que é na esquina da Helvetia com a Cleveland. Notei que os veículos traziam o logo de alguma empresa ou programa municipal: Inova. Certos mantras do neoliberalismo ecoaram em minha cabeça de maneira perversa: meritocracia, inovação, competição…

Encontrei a fotógrafa A, que me deu uma geral do rolê. Vimos um drone voando baixo, que só podia ser da PM. Sabemos que é possível derrubar esse tipo de aeronave, e me falaram que quem opera esse drone para a PM é um civil terceirizado.

Eram 20h horas. Estávamos ao redor do carro de som e várias pessoas falaram, às vezes discursos, às vezes a fala percussiva da poesia preta. Muitas delas eram dirigidas diretamente à polícia presente. Abriram o microfone aos moradores da Cracolândia também. Amarildo foi lembrado: onde está?

Liberar o microfone é sempre meio arriscado para a organização, algo semelhante aos fóruns abertos da internet onde às vezes gruda um troll totalmente “off-topic”, que domina a fala, por vezes insistindo em mensagem dissonante. O povo da rua por vezes traz essa vibe anárquica e louca de pautas alucinadas.

Rolou que um homem da rua cantou ao microfone por vários minutos uma cançoneta cristã. Parecia um hino evangélico, e me fez recordar as ladainhas rurais dos rincões do Brasil. Ninguém o interrompeu e ele até ganhou alguns aplausos. Achei ótimo a organização ter assumido o risco e achei mesmo que vai ser necessário, num contexto mais amplo, dialogar com os evangélicos de esquerda.

Interessante tensão rolou quando o Suplicy tomou o microfone. Ele não é conhecido por sua concisão e brevidade, e logo um par de manifestantes começou a gritar “branco sai, preto fica!”. Achei interessante, pois este é tanto o título de um filme muito legal sobre Brasília, como é uma ordem policial que ecoa desde o Brasil colonial, indicando quem vai apanhar e quem vai para casa sem hematomas. O vereador até acolheu a ordem e se calou pouco depois, mas pensei um pouco sobre os dilemas da especificidade/universalidade.

Eu não sou negro e tenho mais de 50 anos, mas consigo notar que certas elaborações dos novos movimentos driblam dilemas da esquerda institucional e estão sendo formuladas nos âmbitos feminista, LGBT e da gente preta. Já apontei como a fala do rap renova a enfadonha fala sindicalista/partidária, e cria uma cultura da fala poética e militante, abrindo espaço para formulações bem complexas no âmbito do encontro na rua. Por exemplo, uma moça preta brincou com os anagramas dos nomes de Dória e Geraldo (Alckmin): ODIAR e DEGOLAR. O dia que Boulos alcançar essa dimensão de poesia eu me filio ao MTST.

Achei que ir à Cracolândia defender o povo da rua nunca seria uma pauta da CUT hoje, por exemplo. Reconhecer a Cracolândia como uma frente de combate anticapitalista é pauta dos novos movimentos, e estes estão realmente a se opor a Dória.

Um segundo morador de rua do local fez sua fala também, quase uma hora depois. Ele tinha dificuldade em falar, e suas palavras eram também um choro infinito, uma dor sem tamanho que apagava a separação entre a lamúria e a confissão. Foi muito comovente seu grito de profundis.

Ficamos ao lado do acampamento do povo da rua para que estes viessem buscar o que restava de seus pertences. No ponto da vida em que se encontram os moradores da Cracolândia, é difícil para o gari – e muito menos para o policial – distinguir o que é lixo e o que é um pertence. Assim, aqui, o higienismo é particularmente cruel e desumano.

Ficamos lá um bom tempo, tendo a polícia e carros de limpeza retrocedido. Sabíamos não ter resolvido a questão e que, quando saíssemos, voltariam a PM e garis. Mas achei forte este apoio explícito do movimento em favor de Rafael Braga ter feito este link e ter vindo em defesa dos pretos da rua.

Eram 21h quando saí fora, a despeito dos apelos da organização que urgia ficarmos mais até que todos os moradores do território pudessem ter recolhido seus pertences. No caminho para a Luz, vi uma câmera e equipe da Globo no local.

Peguei o metrô e fui para casa.

XXX

Vejo na padaria onde escrevo estas linhas, no dia seguinte, o SP TV sem som, afogado por um breganejo genérico. A legenda na tela diz “novamente tensão na Cracolândia”. A cena era idêntica à de ontem e de vários outros dias: a PM ataca e varre as pessoas, passam os carros-pipa, passam os garis recolhendo pertences (incluindo os cobertores doados pela prefeitura) do povo e eles têm que passar a noite fria à mercê de soldados com cheque em branco para agredir. É guerra, e a Globo é cúmplice deste verdadeiro campo de concentração.